sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Vírus que atinge milhões também pode causar microcefalia em bebês

Citomegalovírus
Ele é pouco conhecido do público e foi ofuscado pelo vírus zika: o citomegalovírus (CMV), que era tido como responsável pela maior parte dos casos de microcefalia e surdez no mundo, está voltando a causar alertas da comunidade médica internacional.
A diferença é que, enquanto só agora o zika está se espalhando, o citomegalovírus já causa milhares de más-formações congênitas em todo o mundo.
Não há dados precisos sobre o Brasil, mas só nos Estados Unidos entre 20 e 40 mil bebês nascem com CMV a cada ano. Pelo menos 20% deles, cerca de 8 mil, possuem ou desenvolvem problemas permanentes como microcefalia, surdez e deficiência intelectual.
Também faltam números precisos sobre a prevalência do vírus no mundo, mas calcula-se que a incidência da infecção congênita por CMV fique entre 1% e 5% dos nascimentos, de acordo com um estudo feito em 2013 na Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul.
No Brasil, país com mais casos de microcefalia relacionada ao zika, não há dados consolidados sobre a prevalência do citomegalovírus, já que a doença não é de notificação obrigatória, de acordo com o Ministério da Saúde. Isso significa que os profissionais de saúde não são obrigados a registrar os casos da doença que chegam até eles.
Segundo um estudo do hematologista Alfredo Mendrone Júnior, do Hemocentro de São Paulo, análises feitas na população brasileira de 15 a 45 anos revelaram a presença de anticorpos contra o CMV - que indica que houve infecção pelo vírus - em mais de 80% dos voluntários no Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e no Estado de Santa Catarina.
Transmissão do citomegalovírus
O CMV pertence à família dos vírus do herpes. Ele se propaga nos fluidos corporais como saliva, urina, lágrimas e leite materno e pode ser transmitido até pelo contato próximo com crianças pequenas infectadas para, por exemplo, trocar suas fraldas.
O vírus também é transmitido através do beijo e das relações sexuais. Uma vez que ele está no organismo, fica ali por toda a vida e pode ser reativado. O portador não ficará doente outra vez, mas pode passar a infecção adiante. Assim como no caso do zika, não há uma vacina para prevenir a infecção pelo citomegalovírus.
Apesar de ser considerado uma infecção sexualmente transmissível (IST), o vírus não aparece no site no Departamento de IST, Aids e hepatites virais do Ministério da Saúde.
No entanto, médicos brasileiros apontam o vírus como o principal causador de alterações do sistema nervoso em bebês até a aparição do vírus zika - e ainda uma fonte de preocupação.
"Sempre que vemos algumas alterações nas crianças, pensamos no CMV primeiro. Principalmente quando vemos calcificações (cicatrizes no cérebro) nas tomografias", disse a infectologista Maria Ângela Rocha, do Hospital Universitário Osvaldo Cruz. "É por isso que, quando os casos de zika apareceram, fizemos questão de investigar primeiro a possibilidade do CMV. E até hoje fazemos isso com todas as crianças."
Efeito devastador nos bebês
A maioria das infecções por CMV não apresenta sintomas, podendo parecer uma gripe leve. Sintomas mais graves geralmente aparecem em mulheres que têm o sistema imunológico fragilizado, por causa do vírus da Aids, por exemplo.
Mas o CMV pode ser devastador para o feto, caso a infecção seja contraída no início da gravidez.
"Quanto mais cedo o vírus chega no feto, mais repercussões clínicas vão acontecer, ou até mesmo o aborto", diz Ângela Rocha. "Se a infecção acontece a partir do sétimo, oitavo mês, o bebê pode não ter microcefalia, mas ter outros sintomas da síndrome congênita, como aumento no tamanho do fígado. Ele pode até parecer saudável ao nascer, mas ter déficit de atenção ou de aprendizado, alterações auditivas."
A descrição é semelhante ao que os médicos já sabem sobre a manifestação do vírus zika nos bebês infectados ainda na barriga da mãe, mas Ângela esclarece que, no caso do zika, os efeitos no cérebro têm-se mostrado mais imprevisíveis - e perigosos.

"As calcificações (cicatrizes) que o CMV deixa no cérebro das crianças são em locais específicos, ao redor dos ventrículos. Já com o zika, elas aparecem de maneira mais anárquica em várias regiões do cérebro. Isso pode deixar mais sequelas", explicou.

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