Desejo constante de não decepcionar o outro pode levar à ansiedade, ao esgotamento e à perda de identidade
Estrelado e multidisciplinar: conheça o time de colunistas do Pulsa
Novo hub da saúde e bem-estar do Estadão conta com grandes especialistas de diferentes áreas. Crédito: Edição de Vídeo: Joaquim Macruz
Recém-lançado no Brasil, o livro “O que eu fiz de errado?” (Editora BestSeller), da psicoterapeuta americana Meg Josephson, coloca em evidência um comportamento comum e muitas vezes elogiado: a necessidade constante de agradar. A autora parte de sua trajetória pessoal para discutir o impulso de monitorar o humor alheio, evitar conflitos a qualquer custo e assumir responsabilidades excessivas para manter relações estáveis.
Embora esse padrão costume ser confundido com gentileza e bondade, ele pode esconder medo de rejeição, dificuldade de estabelecer limites e uma relação frágil com o próprio desejo. Para entender de onde vem essa necessidade e quais são suas consequências para a saúde mental, especialistas explicam como o hábito de dizer “sim” o tempo todo pode custar caro — para quem vive assim e para a qualidade dos vínculos que constrói.

Para a psicanalista Elisama Santos, a raiz dessa questão está na própria natureza humana. “Somos programados para a conexão”, afirma. “Por mais que se fale em autossuficiência, precisamos do amor do outro. Somos seres do coletivo”. Assim, tudo que ameaça o vínculo pode disparar estratégias de autoproteção. Em algumas histórias, ainda na infância, a criança aprende que a melhor forma de manter a conexão é agradando. “Ela conclui, a partir da relação com os cuidadores, que fazer o que o outro quer é a maneira de garantir que ele não vá embora.”
Essa lógica também aparece nas observações de Meg Josephson. Segundo a psicoterapeuta, muitas pessoas aprendem cedo que, para se sentirem seguras ou amadas, precisam ser “boas” e “perfeitas” para manter a paz ao redor. “Isso é especialmente comum quando alguém cresce com cuidadores críticos, controladores ou emocionalmente imprevisíveis”, explica. Nesses contextos, a criança tende a desenvolver uma espécie de hipervigilância emocional, tentando antecipar os humores e necessidades dos outros para evitar conflitos.
Com o tempo, isso deixa de ser escolha consciente e vira um padrão automático de funcionamento.
Nem sempre é gentileza
O comportamento pode assumir muitas formas. Há quem nunca reclame e esteja sempre “bem”. Há a pessoa que se antecipa às necessidades de todos, resolve problemas e raramente diz não. No mercado de trabalho, o padrão aparece como hiperprodutividade e alta performance: quem assume tudo, dá conta de todas as demandas e dificilmente estabelece limites.
O ponto central, segundo Elisama, é que agradar costuma ser socialmente valorizado. “Não é um comportamento rechaçado. Pelo contrário: as pessoas ao redor se beneficiam disso e incentivam”. A filha responsável, a profissional incansável, a parceira que “segura todas” — todos esses papéis podem esconder uma dificuldade profunda de sustentar o próprio desejo.
Leia também
Aprendendo a dizer ‘não’: Como decepcionar as pessoas e não se importar com isso
Você costuma dar as mãos para quem ama? Entenda o incrível poder desse gesto para o bem-estar
A psicóloga Claudia Oshiro, especialista em terapia comportamental e cognitiva, reforça que esse padrão comportamental de esforço excessivo para satisfazer os outros — também conhecido como people-pleasing — costuma se desenvolver em contextos em que afeto e segurança dependiam de corresponder às expectativas alheias. “Isso pode acontecer em famílias muito críticas, imprevisíveis ou emocionalmente pouco disponíveis.”
Nesses cenários, agradar deixa de ser apenas gentileza e passa a funcionar como mecanismo de sobrevivência emocional. “A pessoa aprende que dizer ‘sim’, evitar conflitos e antecipar necessidades alheias reduz rejeição, tensão ou culpa. Muitas vezes o que está sendo protegido não é só a relação com o outro, mas a própria autoestima e o senso de pertencimento”, afirma.
Claudia ainda destaca que o problema não é a dedicação em si, mas quando ela passa a ser guiada principalmente pelo medo de desagradar, decepcionar ou perder vínculos — e não por escolhas genuínas.
Consequências silenciosas
As repercussões aparecem em diferentes níveis. Na relação consigo mesma, a pessoa começa a se desconectar de si. “O foco em agradar se torna tão grande que ela passa a não reconhecer o próprio desejo, o que sente, seus limites”, diz Elisama.
O efeito também é perverso na relação com os outros. A pessoa passa a ser vista como alguém que não precisa de ajuda, de cuidado, que não tem vontade própria. Assim, os laços se formam a partir de uma versão adaptada da pessoa, distante de quem ela realmente é — o que compromete a autenticidade dos vínculos.
Meg aponta que esse padrão pode gerar ressentimento silencioso nos relacionamentos. Como a pessoa evita conflitos a todo custo, acaba se moldando constantemente ao outro e, com o tempo, pode sentir que ninguém a conhece de verdade.
Além disso, há impactos emocionais como ansiedade, ressentimento, sensação de invisibilidade, esgotamento e maior vulnerabilidade a burnout e depressão.





