
[Imagem: Carolina Alves]
Equilíbrio, sempre o equilíbrio
O estresse oxidativo é uma consequência direta do excesso dos chamados radicais livres, moléculas reativas e instáveis que contêm oxigênio.
Os radicais livres são subprodutos metabólicos normais, essenciais, eliminando as células velhas e doentes, além de também ajudarem a transmitir sinais no corpo. É o seu excesso que define o estresse oxidativo, o que pode ser causado por fatores de estilo de vida, ambientais e biológicos, como tabagismo, alto consumo de álcool, má alimentação, estresse, poluição, radiação, químicos industriais e inflamação crônica.
Quando isso ocorre, cria-se um desequilíbrio entre a produção de radicais livres e as defesas antioxidantes do corpo, responsáveis pela sua neutralização. Ou seja, em condições normais, precisamos tanto dos radicais livres quanto dos antioxidantes, já que um controla o outro.
Quando ouvimos falar de "estresse oxidativo" no cérebro, quase sempre interpretamos isso como uma má notícia, associada ao envelhecimento, à doença de Alzheimer e a outras doenças neurodegenerativas. Mas também aqui há movimentos benéficos, com o segredo estando no equilíbrio.
Um novo estudo experimental, realizado por uma equipe da Fundação Champalimaud (Portugal), mostrou agora que um breve e bem controlado pulso de estresse oxidativo, logo após uma lesão, pode na verdade ajudar o cérebro a se reparar.
Faísca oxidativa
Os experimentos mostraram que, após uma pequena lesão no cérebro - os experimentos foram feitos em animais - um grupo específico de células de suporte cerebral, conhecidas como glia, libera rapidamente um pulso de formas quimicamente reativas de oxigênio, que incluem o peróxido de hidrogênio (contido na água oxigenada).
Essa "faísca oxidativa" controlada faz duas coisas ao mesmo tempo: Ativa processos antioxidantes protetores na glia e, o que é crucial, age como um sinal de ativação de células que normalmente estão inativas, levando-as a se dividir e a substituir o tecido perdido.
Os cientistas identificaram também a responsável por este pulso de radicais livres: Uma enzima chamada Duox, presente na membrana das células gliais, que produz peróxido de hidrogênio fora das células. "Isso foi surpreendente, pois inicialmente pensávamos que as mitocôndrias - as minúsculas baterias das células - seriam as principais geradoras de estresse oxidativo no cérebro lesionado," explicou a pesquisadora Carolina Alves.
Quando a atividade da Duox foi reduzida geneticamente, ou quando a quantidade de oxigênio reativo foi atenuada com tratamentos antioxidantes, o cérebro lesionado produziu menos células novas e a resposta regenerativa foi substancialmente menor. Em contrapartida, estimular a glia para aumentar a atividade da Duox foi suficiente para desencadear divisões celulares adicionais, mesmo na ausência de lesão.
Novas estratégias
Isto significa que, em particular, o peróxido de hidrogênio derivado da glia é um poderoso motor de plasticidade cerebral.
Estes resultados desafiam a ideia simplista de que o estresse oxidativo no cérebro é sempre prejudicial, e podem ajudar a explicar por que as terapias antioxidantes de amplo espectro não conseguem, em grande parte, melhorar a recuperação cerebral nos doentes após uma lesão - elas acabam inibindo os radicais livres em um momento em que eles são essenciais.
A expectativa agora é que estas descobertas levem ao desenvolvimento de estratégias mais direcionadas, que atenuem o estresse oxidativo crônico prejudicial preservando - ou mesmo aproveitando - esses sinais oxidativos de curta duração, abrindo novos caminhos para promover a reparação cerebral.
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