segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Como os EUA fazem a China grande novamente

A nova ascensão econômica chinesa é um plano de longa data, e as decisões erradas do presidente Trump reforçam essa trajetória. A era de Washington como hiperpotência chega ao fim, opina o jornalista Miodrag Soric.
Presidentes Trump (esq.) e Xi se cumprimentam em Pequim Presidentes Trump (esq.) e Xi se cumprimentam em Pequim
Como Donald Trump esbravejou contra a China durante sua campanha eleitoral! Há décadas Pequim estaria "se aproveitando" dos Estados Unidos, roubando sua propriedade intelectual. O país obteria vantagens comerciais ilícitas mantendo artificialmente baixa a cotação do renminbi, afirmava, produtos baratos chineses inundariam o mercado americano, ameaçando postos de trabalho.
O candidato presidencial republicano prometeu uma mudança de curso radical: ele imporia barreiras aduaneiras à China, colocando a rival sob pressão, e os interesses dos EUA, em primeiro lugar. Há dez meses Trump ocupa a Casa Branca, sem ter transformado em ação nenhuma de seus anúncios grandiloquentes. Pelo contrário: em sua viagem pela Ásia ele paparica o presidente chinês, Xi Jinping. Este aceita em silêncio as lisonjas do homólogo, por vezes com um sutil sorriso diante das câmeras.
O que terá acontecido com Trump? A que atribuir tal mudança de atitude? Ao que tudo indica, ele teve um encontro com a realidade. A economia chinesa floresce há décadas, a participação do país nas exportações globais perfaz 14% do comércio mundial – tendência crescente – enquanto os americanos mal alcançam os 10%.
Os EUA vivem de empréstimo, dependendo de que a China continue lhes concedendo crédito. Pois há anos os chineses vêm investindo os ganhos do superávit de exportações em títulos de dívida pública americanos. Dessa forma tornaram-se o maior credor do país, depois do banco central americano. Se quiserem, podem a qualquer momento fechar a torneira de dinheiro, precipitando a economia americana numa crise.
Está claro que Pequim não fará tal coisa, pois estaria prejudicando a si mesmo. No entanto a consciência dessa possibilidade fortalece a autoconfiança. Quando os chineses negociam com os americanos, é com alguém que lhes deve dinheiro. O embaixador chinês em Washington mal consegue andar, tamanho é o poder que carrega.
A maior parte dos teóricos da economia é unânime em afirmar que é uma mera questão de tempo até a China alcançar e, aí, ultrapassar os EUA como maior economia nacional. O tempo trabalha a favor de Xi, as ameaças do insolente colega não o abalam.
Também no tocante à Coreia do Norte, o presidente chinês não cede à pressão. Pequim não quer nenhum "regime change" em Pyongyang: por que contribuiria para ampliar a influência americana no Leste Asiático? Xi tampouco quer nessa região uma guerra, que poderia ser ruim para os negócios. O governo chinês urge os americanos a suspenderem as ameaças à Coreia do Norte e se esforçarem por uma solução diplomática – e com tais palavras de moderação recebe o aplauso da Europa e da Rússia.
Devido a uma série de más decisões, Trump vem dando ainda mais impulso à ascensão futura da China. A mais importante entre elas foi a retirada americana da Parceria Transpacífico (TPP). Em sua concepção original, esse acordo de livre-comércio deveria frear as pretensões hegemônicas chinesas. Auxiliados pelos EUA, países como o Vietnam ou o Japão pretendiam estabelecer padrões relativas, por exemplo, a produção, comércio, proteção trabalhista e ambiental. Os chineses teriam que se acomodar.
Entretanto Trump demonizou o TPP em sua campanha eleitoral e, após a posse, abandonou-o. Desde então crescem entre os aliados dos EUA na Ásia as dúvidas quanto à confiabilidade do país. Para China, isso é lucro.
A nova ascensão chinesa como potência mundial parece ser um plano de longo prazo. Sob Mao Tsé-tung, foram unificadas as províncias do país que antes se combatiam. Com Deng Xiaoping começou o avanço econômico. Agora Xi pretende fortalecer a tal ponto a política exterior e de segurança da China que os interesses chineses também tenham que ser considerados nas decisões da política mundial.
Trump não tem como impedir: a era de Washington como hiperpotência vai chegando ao fim.

Os "papers" do inferno

Pedro Marques Lopes

Sim, eles comem a nossa comida e respiram o nosso ar e esperam que nós o mantenhamos puro e saudável; eles exigem que sejamos educados para que trabalhemos para eles, e para esse propósito esperam que paguemos um bom sistema de educação pública. Eles também contam que vejamos os filmes deles, que compremos os seus produtos, que usemos os seus softwares. (...) Mas essas celebridades e empresários preferem nada fazer para que tudo isso exista. Deixam esse encargo para nós."
Tenho pena de não ter sido eu a escrever isto. Foi um senhor chamado Frank Thomas que, a propósito dos Paradise Papers, o fez numa crónica que publicou no The Guardian da passada quinta-feira.
No fundo, o cronista americano resume em poucas palavras o que está mais diretamente em causa neste terrorismo institucional contra as comunidades que em vez de AK-47 usa armas mais poderosas como os paraísos fiscais e a fuga massiva a impostos. As consequências práticas de um atentado permanente aos valores que permitem que uma comunidade se mantenha equilibrada, que a confiança entre as pessoas desapareça e se chegue a uma espécie de barbárie de cada um por si.
Talvez falte a Frank Thomas lembrar que as forças de segurança que nós pagamos estão sobretudo ao serviço de quem menos contribui para a sua existência e funcionamento, que os tribunais servem muito mais para defender os interesses deles do que os nossos direitos, que nós pagamos para que quem roube um euro vá preso e subsidiamos quem rouba milhões e milhões. Roubar? Não, roubar não é o termo. O que estes senhores e senhoras fazem não é roubar. O que fazem é legal, pelo menos não é ilegal. E esse é, talvez, o maior problema, como também bem nota o referido autor.
De facto, o que estas gigantescas corporações, multimilionários, artistas, desportistas fazem não é, na maioria das situações, contra nenhuma lei. As engenharias fiscais, as sociedades em cascata, os milhares de artifícios legais só disponíveis para os muito ricos. O que os Panama, Paradise e outros papers nos dizem é que há uma casta acima da lei. Um grupo de gente para quem andamos todos a trabalhar e quase nada devolvem às sociedades que lhes permitem ter aquilo que têm.
Quando googlar, mandar um e-mail, escrever numa folha de cálculo, comprar uma coisa qualquer através da internet, lembre-se de que essas magníficas corporações pagam percentualmente muito menos impostos do que um qualquer cidadão, daqueles privilegiadíssimos, que ganhe 2000 ou 2500 euros por mês. Que essas empresas e muitas outras basearam-se, claro está, na enorme criatividade e capacidade de trabalho dos seus fundadores e dos seus trabalhadores, mas aproveitaram todas as infraestruturas que os Estados, pagos por si e por milhões como você, construíram - vias de comunicação, a própria internet e tudo o resto.
Quem fala dessas empresas pode também falar dos muito ricos. E não devem ser esquecidos os artistas e desportistas que tanto aplaudimos e que tantas vezes nos fazem gastar o pouco que nos resta, que seguimos para todo o lado, que defendemos com unhas e dentes. São os mesmos que dependem de nós e que não hesitam em esquecer-se de tudo o que lhes damos na altura em que têm de nos devolver algumas migalhas. Vemo-los muitas vezes em eventos de caridade ou de solidariedade a destilar, sabemos agora, hipocrisia.
Lembro-me de na altura dos Panama Papers ter escrito que nada podia continuar como dantes. A verdade é que nada mudou e há bons indícios de que nada vá ser alterado. Bem sei que a globalização gerou um mundo em que o poder financeiro se tornou de facto universal e o político - e dificilmente deixará de assim ser - continuou local. Mas a questão é até simples: ou o poder político, reflexo da vontade das comunidades, se consegue impor ou a nossa maneira de viver implode. E se os nossos representantes se mantêm cegos e surdos à realidade que estes papers todos nos mostram é porque simplesmente deixaram de ter a capacidade de nos representar.
Não é pura e simplesmente possível uma comunidade viver na desconfiança sem que se desagregue ou, no mínimo, sem que corra seriíssimos riscos de isso acontecer. A desigualdade que aumenta já não é só a de rendimentos, é a própria igualdade de facto perante a lei que está em causa. Melhor, a lei não é a expressão da vontade popular e não é elaborada para o bem comum mas só para o bem de alguns.
Os Paradise Papers são a continuação de um romance de terror que desemboca na descredibilização completa da democracia, na perda de confiança dos representados nos seus representantes, na perda de valores fundadores do nosso modelo social e no desprezo por figuras que consideramos referências para as comunidades.
Não, este não é um texto de um revolucionário. É apenas um texto de um conservador que gostaria de continuar a viver em democracia, numa sociedade em que as pessoas não tivessem razões evidentes para desconfiar umas das outras e que acha o capitalismo um bom sistema. Mas que julga saber que não é possível um sistema sobreviver muito tempo quando os que menos podem pagam o mundo dos que mais podem, quando fica claro que a lei, que tem de ser um reflexo dos nossos valores e da nossa moral, serve para que uns tenham cada vez mais e outros cada vez menos.
O último livro de Robert Reich, ex-secretário de Estado de Bill Clinton, tem o título Salvar o Capitalismo e o subtítulo "Para todos e não só para alguns".
É exatamente isso.

domingo, 12 de novembro de 2017

Hidrovias: gargalos do setor e os papéis do governo e da iniciativa privada no Brasil

Cauê Vizzaccaro
O Brasil possui uma das mais extensas e diversificadas redes fluviais do mundo, com um potencial de cerca de 50 mil quilômetros de rios navegáveis. Mas não explora nem mesmo a metade dessas rotas que poderiam baratear o transporte de cargas no País, especialmente os produtos do agronegócio. O efeito seria multiplicador: cada barcaça padrão pode tirar das rodovias até 70 carretas de grãos. Mas transformar isso em realidade não é uma tarefa fácil. “Precisamos de um plano de 15 anos de investimentos constantes em hidrovias, com parcerias entre o governo e o setor privado”, diz o engenheiro mecânico-aeronáutico Bruno Serapião, CEO da Hidrovias do Brasil. “Não fazemos infraestrutura sem enxergar um retorno mínimo de capital.” A empresa foi criada pelo fundo de infraestrutura Pátria Investimentos, e conta com participação do canadense Aimco; do fundo Temasek, de Cingapura; do IFC, o braço financeiro do Banco Mundial, além do BNDESPar, o gestor de participações do BNDES. Mas a maior empresa do setor fluvial do País não está parada. Hoje, ela transporta seis milhões de toneladas em todo o território nacional e quer mais. Disposta a adminstrar até ferrovias, se for preciso, e com investimentos da ordem de R$ 1,5 bilhão em projetos hidroviários no Norte do Brasil, o plano é transportar 6,5 milhões de toneladas por ano somente nessa rota, dentro de três safras. O potencial da região é de 25 milhões de toneladas nos próximos cinco anos, mais que o dobro do que deve ser transportado neste ano.
DINHEIRO RURAL – Por que há tão pouco investimento em hidrovias no Brasil?
BRUNO SERAPIÃO – O problema no Brasil é a falta de uma estrutura que permita o desenvolvimento de modais de transporte com custos de operação mais baratos que o rodoviário. O País possui uma matriz de transporte muito focada nas rodovias. O segundo modal é o ferroviário. O hidroviário é o terceiro, seguido pela cabotagem. O setor, de fato, é pequeno.
RURAL – Em quê a Hidrovias aposta?
SERAPIÃO – Nós transportamos seis milhões de toneladas de produtos. Cerca de três milhões saem pelo Sul, entre minério e soja. Também fazemos um milhão de toneladas de celulose. Os outros dois milhões de toneladas saem pelo Norte. Mas queremos mais. Nos próximos três anos, vamos chegar a 6,5 milhões nesse corredor.
RURAL – Como a empresa está ganhando dinheiro nesse negócio?
SERAPIÃO – Não fazemos infraestrutura sem enxergar um retorno mínimo de capital. Nosso modelo de trabalho é por contrato, como fazem grupos de infraestrutura, entre eles, a construtora CCR. Em 2016, batemos o recorde de comboios de barcaças nas hidrovias da região do Arco Norte. Começamos em 2016 com 12 barcaças, com cerca de 24 mil toneladas transportadas. Hoje, com 25 barcaças, empurramos 50 mil toneladas. Na média, os comboios nessa região transportam entre 25 mil e 30 mil toneladas. É assim que se ganha dinheiro neste negócio.
RURAL – O transporte hidroviário é de fato o mais competitivo?
SERAPIÃO – Não. O transporte por duto é o mais barato. Seguido por hidroviário, ferroviário, rodoviário e transporte aéreo. O problema é a necessidade do transporte multimodal. Aí, quanto maior a distância que passar por um modal mais competitivo, melhor será. Quanto menores as distâncias, menos competitivo será, por causa dos transbordos. É ruim um transporte em ferrovia por menos de 500 quilômetros, em hidrovia por menos de 700 quilômetros e em duto, por menos de mil quilômetros.

O ponto principal é deixar as pequenas distâncias para rodovias e as longas para hidrovias e ferrovias

Corredor logístico norte: nos portos de Miritituba (foto) e Barcarena foram investidos R$ 1,5 bilhão
RURAL – Os principais entraves do setor são a burocracia e as regulamentações ambientais e alfandegárias?
SERAPIÃO – O empresariado diz que é muito burocrático fazer navegação no Brasil, mas é só seguir as regras. Quando se faz um porto, é preciso capital e marco regulatório. No Brasil é possível ter um porto privado, mas a parte ambiental, com as licenças prévias de instalação, operação e vigilância sanitária, por exemplo, ficam dispersas em órgãos como o Ministério da Agricultura e a Receita Federal, entre outros. Mas esse processo poderia ser integrado e centralizado em uma entidade, como a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq).
RURAL – A culpa pela falta de investimento é do governo ou do setor privado?
SERAPIÃO – Não gosto de usar o termo culpa, mas é preciso ter uma política de desenvolvimento de transporte. Quais segmentos de transporte devem funcionar? Em Santos tem caminhão, hidrovia, ferrovia e duto. No Norte não se tem a clareza dos canais logísticos de escoamento. O sistema dos rios Teles Pires-Tapajós poderia ser navegável até parte de Mato Grosso, em vez de somente até Miritituba, no Pará. Nesse trecho, navegamos por 1,2 mil quilômetros, mas o ideal seriam dois mil quilômetros. Desde a Lei dos Portos, em junho de 2013, o grosso dos investimentos tem sido da iniciativa privada. O ideal seria um plano de 15 anos de investimentos constantes, com parceria entre o governo e o setor privado.
RURAL – Qual deve ser o papel do governo neste setor?
SERAPIÃO – O governo tem dois papéis. O primeiro é organizar o desenvolvimento dos canais logísticos. O plano nacional de logística, de 20 anos, não pode mudar a cada ano. Como empresário, não consigo investir em tudo: portos, hidrovia, ferrovia e rodovia. Eu não posso substituir o Estado. Por exemplo, Cuiabá é um grande centro consumidor. Então, vamos garantir que receba todos os modais de transporte para que seja competitivo consumir ali. O segundo papel é regular e definir regras iguais a todos. Se eu invisto no Norte R$ 1,5 bilhão, pago os impostos, faço as licenças, vou à Antaq e participo de anúncios públicos, não dá para ver o vizinho desmatar, jogar barcaça no rio e competir com quem cobra 30% menos por serviços.
RURAL – A questão ambiental não seria um mote para cobrar do governo mais investimento?
SERAPIÃO – Sim, porque a barcaça só emite 10% da poluição de um caminhão. Com ela, gasta-se menos combustível por tonelada transportada. O ponto principal é deixar as pequenas distâncias para as rodovias e, as longas, para as hidrovias e ferrovias, como na Europa e nos Estados Unidos.
RURAL – Em quais rotas a Hidrovias do Brasil investirá?
SERAPIÃO – Em 2015, levantamos US$ 350 milhões de capital com os acionistas e usamos metade. Nosso foco é na diversificação do corredor Norte. Hoje, há duas estruturas portuárias construídas para a soja e o milho em Miritituba e Barcarena. Temos grandes projetos para fertilizantes, granel líquido e outras cargas que melhorariam e diversificariam esse sistema.

O ideal seria um plano de 15 anos de investimentos, com parceria entre governo e setor privado

corredor logístico sul: potencial para escoar
três milhões de toneladas de soja pela Bacia do Prata
RURAL – O escoamento de grãos pela bacia amazônica tem potencial para mais investimentos?
SERAPIÃO – O potencial de hidrovias para a região Norte do Brasil é fantástico. Para atender a Europa e os Estados Unidos, por que ir para Santos? A ideia é colocar o Norte como um hub logístico. Nossos contratos neste ano são de dois milhões de toneladas, mas podemos crescer ainda 4,5 milhões dentro da capacidade instalada.
RURAL – E no Sul, qual o potencial pela Bacia do Prata, através do rio Paraguai?
SERAPIÃO – O problema é o Estado do Mato Grosso do Sul, onde acontecem os embarques, com uma política de impostos que dificulta a exportação de soja in natura. Mas é possível escoar três milhões de toneladas pela Bacia do Prata. Um dos nossos focos atuais é entender qual é a viabilidade de levar a soja do Brasil até a Argentina. Esse país possui uma grande estrutura de moendas do grão.
RURAL – Por que a Hidrovias do Brasil começou a investir em navegação marítima na costa, no ano passado, um sistema que até então estava fora do radar?
SERAPIÃO – Se um cliente tem uma necessidade de transportar de A para B, nós fazemos a ligação. Como já estamos com uma estrutura de navegação no Norte, tivemos a oportunidade de fazer algo similar com a cabotagem. Enxergamos um potencial enorme na costa marítima brasileira. Por exemplo, há um movimento de milho para o Nordeste. Caso precise operar uma ferrovia, nós temos condição até para isso.
RURAL – Quais são os maiores entraves ao transporte de cabotagem no Brasil?
SERAPIÃO – Uma das medidas necessárias é separar a cabotagem da navegação marítima global. Na cabotagem, os processos portuários ainda funcionam como na navegação de longo curso, que é mais burocrática por causa das regras internacionais.
RURAL – Essa expansão é sinal de que os fundos, principalmente o Pátria, podem começar a ofertar o controle da empresa ao mercado?
SERAPIÃO – Não há nenhum processo de venda da companhia neste momento, mas não posso falar pelo acionista. Como CEO, digo que a empresa foi montada em 2010 para ser um projeto de longo prazo, para operar pelo menos por 30 anos.
RURAL – Em quais países estão os melhores sistemas hidroviários no mundo?
SERAPIÃO – Nos Estados Unidos, são 650 milhões de toneladas transportadas todos os anos por hidrovias. Os americanos possuem um sistema bem desenvolvido, que é comandado pelo exército. Lá, os investimentos estrangeiros são proibidos por lei de entrar nesse setor logístico. O sistema europeu é considerado a melhor estrutura no mundo. Os governos da União Europeia colocam muito dinheiro nas ligações hidroviárias. Além disso, os modais são mais integrados, por causa das curtas distâncias entre os países. A China também tem uma boa hidrovia no rio Yangtzé, mas não temos informações sobre a sua eficiência.

Quando será a virada energética global?

12 nov 2017
Estudo trata como possível que, até 2050, 100% do fornecimento mundial de energia elétrica possa vir de fontes renováveis. Questão não seria mais de viabilidade técnica ou rentabilidade, mas de vontade política.Seria possível um fornecimento global de eletricidade 24 horas por dia, apenas com fontes renováveis de energia e armazenamento? Quais são as melhores e mais baratas tecnologias, do ponto de vista atual, nas diferentes regiões do mundo? E que consequências um sistema de energia renovável traria para os empregos e a proteção climática?
São essas as questões sobre as quais se debruça uma equipe de cientistas na Universidade de Tecnologia Lappeenranta (LUT), na Finlândia. A equipe, liderada pelo professor Christian Breyer, processou inúmeros dados em todas as regiões do mundo sobre consumo de energia, desenvolvimento populacional e clima.
"Uma descarbonização completa do setor elétrico até 2050 é viável - e mais econômica do que o sistema elétrico de hoje. A transição energética não é mais uma questão de viabilidade tecnológica ou rentabilidade econômica, mas uma questão de vontade política", disse Breyer, na apresentação do estudo, na conferência do clima em Bonn, Alemanha.
Segundo Breyer, a queda brusca dos custos fará com que a energia fotovoltaica e o armazenamento de baterias se tornem os principais pilares do fornecimento de energia a longo prazo. A equipe finlandesa calcula que a participação da energia fotovoltaica no mix energético global aumentará de 37% em 2030 para 69% em 2050, passando assim a representar mais de um terço da eletricidade global.
Em regiões de muito vento e pouco sol, como o norte da Europa e o norte da Ásia, as perspectivas de mix energético são logicamente diferentes daquelas da África, onde o peso da energia solar é muito maior.
Para um fornecimento elétrico seguro 24h, é preciso armazenamento. De acordo com uma simulação feita pela equipe de pesquisa finlandesa, cerca 31% da demanda de energia será coberta por instalações de armazenamento até 2050. Disso, 95% virão de baterias. Elas servem, sobretudo, para compensar as flutuações diárias. Outra tecnologia de armazenamento para compensar tais variações sazonais é o gás produzido sinteticamente a partir de fontes de energia renováveis.
Os autores do estudo estimam que, até 2050, a população mundial terá aumentado para quase 9,7 bilhões de pessoas. Em comparação com hoje, o mundo vai consumir o dobro de energia elétrica. A chamada "virada energética" também tem vantagens para empresas e consumidores. Comparados com o presente, os custos de geração de eletricidade (incluindo rede e armazenamento) caem aproximadamente 25%.
A transição global para fontes de energia sustentáveis também tem um impacto no mercado de trabalho. Atualmente, cerca de 19 milhões de pessoas em todo o mundo têm empregos no setor elétrico, metade delas só na indústria do carvão.
Os empregos na indústria carbonífera já sofreram perdas no mundo todo. Por outro lado, estimativas apontam que dobrará a quantidade de postos de trabalho no setor de geração de energia renovável, principalmente na área da energia solar, tecnologia de baterias e energia eólica.
Na cúpula mundial do clima, discute-se intensamente sobre as medidas necessárias para reduzir os gases de efeito estufa, com o objetivo de manter o aquecimento global abaixo de dois graus em relação aos níveis pré-industriais.
Atualmente, a geração de energia global é responsável por cerca de 20% da poluição atmosférica com gases do efeito estufa, sobretudo devido ao carvão. Se a geração de energia fosse convertida conforme a simulação de Breyer e sua equipe, as emissões de usinas elétricas poderiam cair em mais de 60% até 2025 e em mais de 80% até 2030. Com isso, uma parcela significativa da redução de gases de efeito estufa seria alcançada.
"Eu acho tal cenário totalmente realista, pois a energia renovável fica cada vez mais barata", disse a economista do clima Claudia Kemfert, do instituto alemão DIW, durante a apresentação do estudo. "Vimos, no passado, que todos os estudos subestimaram a expansão das energias renováveis".
Kemfert acredita ser possível a migração para uma eletricidade 100% renovável em três décadas.
O presidente do Grupo Energy Watch, Hans Josef Fell, compartilha esse ponto de vista e fala de uma aceleração dinâmica, que agora é impulsionada principalmente pelo grande setor financeiro.
"As instituições financeiras veem os investimentos em carvão, energia nuclear, petróleo e gás natural como arriscados e os abandonam", pondera.
Stefan Gsänger, da Associação Mundial Eólica, também vê as perspectivas do estudo como realistas, mas, ao mesmo tempo, adverte contra o excesso de otimismo: o sucesso de tal cenário não depende só do mercado. Precisa de apoio político. "Espero que haja pressão pública suficiente sobre os tomadores de decisão do mundo todo."

sábado, 11 de novembro de 2017

'Meus pais não sentam à mesa com minha esposa e filho': o drama envolvendo casamentos entre castas na Ásia

Balaram Dhakal é da casta Brahmin e se casou com uma mulher de casta imediatamente "abaixo" da sua na tradição hindu. Os pais dele não aceitam comer alimentos tocados por ela ou pelo neto. Na Índia, 90% dos casamentos são entre pessoas da mesma casta.

11 nov 2017 

Balaram Dhakal se interessou por Nitu Karki assim que a viu, em 2007, na fileira da frente da sala onde ele daria aulas de gestão hoteleira, em Katmandu, no Nepal. "Eu a achei muito bonita. Os olhos claros me chamaram a atenção e eu gostei do jeito dela", conta.
A família de Nitu Karki aceitou o casamento dela com Balaram, mas os pais dele não recebem a nora em casa e não sentam à mesa com o neto, porque ela não é da mesma casta deles | Fonte: Arquivo pessoal
A família de Nitu Karki aceitou o casamento dela com Balaram, mas os pais dele não recebem a nora em casa e não sentam à mesa com o neto, porque ela não é da mesma casta deles | Fonte: Arquivo pessoal
Foto: BBCBrasil.com
Na última semana do curso, ele tomou coragem e convidou a moça para tomar chá. "Ela disse 'sim'. Também tinha gostado de mim. Depois de um mês de namoro eu já tinha decidido que queria me casar com ela", relata Balaram, que coordena a equipe de garçons do bar de um hotel cinco estrelas de Katmandu.
À primeira vista, todos os ingredientes típicos para o começo de um relacionamento estavam ali: os dois eram solteiros e estavam apaixonados.
Mas a verdade é que havia um abismo entre eles difícil de equalizar. O que separava o casal não era dinheiro, nem interesses e afinidades. Era algo ainda mais complicado de resolver no contexto cultural de alguns países de maioria hindu, como Nepal e Índia - a diferença de castas.
As castas, determinadas ao nascimento e transmitidas de pai para filho, definem o status social da população do Nepal e da Índia, países de forte tradição hindu | Fonte: Arquivo
As castas, determinadas ao nascimento e transmitidas de pai para filho, definem o status social da população do Nepal e da Índia, países de forte tradição hindu | Fonte: Arquivo
Foto: BBCBrasil.com
Mais do que sobrenome, trabalho ou recursos financeiros, o que define o status social nesses dois países é a casta a que a pessoa pertence, determinada no nascimento e por hereditariedade, explica a pesquisadora Dalel Benbabaali, da Universidade de Oxford, que estuda o efeito político e social da estratificação por castas no sul da Ásia.
"A divisão por castas está fortemente enraizada na mentalidade e cultura dessas sociedades. Existem leis que proíbem tratamento discriminatório e muitos negam que haja preconceito por casta. Mas é justamente no momento da escolha do parceiro para o casamento que essa divisão se torna mais clara", diz ela à BBC Brasil.
"As famílias de casta mais alta, muitas vezes, não admitem que seus filhos se casem com pessoas de castas inferiores."
Balaram é Brahmin, considerada a casta mais "alta" na tradição hindu, associada culturalmente aos sacerdotes e professores. A mulher por quem ele se apaixonou, Nitu, é Chhetri (ou Kshatriya), segunda mais alta casta na hierarquia, associada aos "guerreiros" e que compunha a família real nepalesa (o país aboliu a mornarquia e hoje tem um sitema de parlamentarismo multipartidário).
Nitu e Balaram se conheceram em um evento de gestão hoteleira e se apaixonaram Fonte: Arquivo pessoal
Nitu e Balaram se conheceram em um evento de gestão hoteleira e se apaixonaram Fonte: Arquivo pessoal
Foto: BBCBrasil.com
As duas outras castas, em ordem de "hierarquia", são: a Vaishya (associada a funções de comércio, agricultura e pastoreio) e a Shudra (trabalhadores braçais). Na base da pirâmide social estão os "dalits" ou "intocáveis", que não pertencem a essas castas e a quem são delegados serviços "degradantes" na cultura hindu, como manuseio de cadáveres e limpeza de banheiros.
O Manusmriti , mais importante livro sobre as leis hindus, escrito pelo menos mil anos a.C., "reconhece e justifica o sistema de castas como a base da ordem da sociedade". A crença é que as quatro castas (Brahmin, Kshatriya, Vashya e Shudra) se originaram de Brahma, o Deus da criação.
No topo da hierarquia, os brahmins teriam surgido da cabeça de Brahma. Os Kshatriyas, dos braços de Brahma. Os Vashya viriam das coxas e os Shudras, dos pés.
O peso da tradição milenar se revelou bem claro quando Balaram Dhakal anunciou aos pais que se casaria com uma mulher de casta imediatamente "inferior" à dele.
"Minha mãe ficou inconsolável, com muita raiva. Ela dizia: `Mas por que você escolheu uma pessoa de casta inferior? Você tem que se casar com uma Brahmin'", relata Balaram.
Ele desafiou a família e se casou com Nitu, mas as portas da casa dos pais dele nunca se abriram para ela. "Tentei apresentá-la para os meus pais, mas minha mãe ficava irritada e não queria que a minha esposa frequentasse a casa deles."
O pai era mais flexível e aceitava ter contato com a nora. Mas impunha uma condição. "Ele disse que não comeria alimento que fosse preparado pela minha esposa, nem sentaria à mesa com ela para uma refeição", diz Balaram.
Balaram hoje convive mais a família de Nitu, por causa da rejeição dos pais ao seu casamento. Na foto, aparece com a sogra, a esposa, a cunhada e o filho Fonte: Arquivo Pessoal
Balaram hoje convive mais a família de Nitu, por causa da rejeição dos pais ao seu casamento. Na foto, aparece com a sogra, a esposa, a cunhada e o filho Fonte: Arquivo Pessoal
Foto: BBCBrasil.com
Há cinco anos, o casal teve um filho. Os avós quiseram conhecê-lo, mas impuseram a mesma regra: não se sentariam à mesa para comer com o menino.
"Eu me sinto muito mal com isso, porque a minha família acaba não convivendo com meus pais. Eu queria todos à mesa, juntos. Queria que meus pais aceitassem a minha esposa e que tivessem mais contato com o meu filho", afirma Balaram.
Ao contrário dos pais de Balaram, a família de Nitu aceitou bem o casamento. Os pais e a irmã dela convivem bastante com o casal e o filho deles.
De pai para filho
A casta na tradição hindu é passada de pai para filho, num rígido sistema parcialmente responsável por uma sedimentada estratificação social. Integrantes das castas "inferiores" ainda hoje são discriminados e têm menos oportunidade de estudar e enriquecer.
Embora haja leis na Índia e no Nepal proibindo tratamento diferenciado por castas, a divisão pode ser claramente vista nos bairros, escolas, universidades, no preenchimento de postos de trabalho e, principalmente, nos casamentos.
Segundo a professora Benbabaali, 90% dos matrimônios na Índia são entre pessoas da mesma casta.
"E dos 10% que sobram, raros são os casos de casamento entre um dalit e uma pessoa de casta superior, como Brahmin. Geralmente são casamentos entre pessoas de castas superiores", afirma a professora de Oxford.
Na Índia, 90% dos casamentos são entre pessoas da mesma casta. Os outros 10% são entre pessoas de castas próximas em termos hierarquicos.
Na Índia, 90% dos casamentos são entre pessoas da mesma casta. Os outros 10% são entre pessoas de castas próximas em termos hierarquicos.
Foto: BBCBrasil.com
Embora essa divisão social seja uma característica típica da religião hindu - que acredita que a reencarnação em uma casta inferior ou superior depende do comportamento adotado na vida passada -, esse sistema é tão fortemente enraizado nas comunidades indianas e nepalesas que persiste mesmo entre adeptos do islã e do cristianismo, diz Benbabaali.
"O hinduísmo tem influenciado outros grupos religiosos no sul da Ásia. Mesmo muçulmanos e cristãos seguem sistemas de castas. Essas pessoas, em sua maioria, são hindus que se converteram e, mesmo depois da conversão, mantêm suas identidades de castas."
"Em igrejas católicas, você verá dalits cristãos sentados atrás e perceberá que os padres são, muitas vezes, integrantes das castas superiores. E, em alguns cemitérios muçulmanos, existe segregação por casta, com uma área separada para os dalits. Muitas dessas conversões foram uma tentativa de escapar da opressão de casta, mas o que se vê é que a discriminação persiste."
Policiamento até no Tinder
Benbabaali explica que é possível identificar a qual casta uma pessoa pertence pelo sobrenome e, em muitos vilarejos, todos sabem a casta dos vizinhos.
"Alguns nomes são fortemente associados a uma casta ou outra - Pandit, por exemplo, é um nome comum entre os Brahmins indianos. Mas, nos povoados, todos sabem quem é de cada casta. E existe uma certa estratificação urbana, com ruas só ocupadas por dalits e bairros de Brahmins, por exemplo", afirma a professora.
Segundo Benbabaali, por mais que a resistência em se relacionar com castas diferentes esteja lentamente se reduzindo na Índia e no Nepal, a importância ainda dada a isso pode ser vista até na dinâmica dos aplicativos de relacionamento.
"Mesmo no Tinder, logo depois do primeiro 'oi', 'tudo bem', vem a pergunta: 'Qual é o seu nome todo?'. É um modo de identificar a casta", diz.
No mercado imobiliário da Índia também é possível verificar, conforme a professora, esforços para evitar inquilinos de castas baixas. "Uma forma comum usada para evitar aluguel para muçulmanos ou dalits é anunciar o imóvel destacando que só se aluga para vegetarianos."
Tradicionalmente, quanto mais elevada a casta, maiores as restrições alimentares. Normalmente os Brahmins são vegetarianos, por exemplo. É o caso dos pais de Balaram. "Eles são muito tradicionais. Não comem carne e seguem à risca todos os rituais e costumes da nossa casta", diz ele.
Movimentos pelos direitos dalits
Nos últimos anos, vários movimentos foram criados, principalmente na Índia, em defesa dos direitos dos dalits e pela inclusão social de integrantes de castas consideradas "inferiores".
A Constituição indiana, de 1950, inaugurou uma série de medidas afirmativas com o objetivo de dar oportunidade a grupos marginalizados na hierarquia de castas do país.
O Manusmriti, considerado o mais importante livro sobre as leis hindus, escrito pelo menos 1.000 anos A.C. 'reconhece e justifica o sistema de castas como a base da ordem e regularidade da sociedade'.
O Manusmriti, considerado o mais importante livro sobre as leis hindus, escrito pelo menos 1.000 anos A.C. 'reconhece e justifica o sistema de castas como a base da ordem e regularidade da sociedade'.
Foto: BBCBrasil.com
Foram instituídas, por exemplo, cotas em instituições de ensino e para cargos no governo, além de assentos no Parlamento e nas Assembleias de Estado. O objetivo era tentar corrigir centenas de anos de discriminação.
No entanto, o preconceito por casta persiste, principalmente em relação aos dalits, considerados "impuros" e, por isso, apelidados também de "intocáveis".
"Existem casos de pais de alunos que protestam contra ter dalits entre os cozinheiros que preparam as refeições das crianças na escola. Alegam que estão poluindo a comida e pedem a demissão deles", relata Benbabaali.
Efeitos sociais e econômicos
Pesquisadores apontam que o sistema de castas tem impacto tanto na desigualdade social quanto no desenvolvimento econômico dos países que adotam essa estrutura.
Em 2009 e 2010, 82% dos dalits na Índia estavam abaixo da linha de pobreza, sobrevivendo com US$ 2 por dia, conforme o Censo de 2011, que, pela primeira vez, levou em conta a divisão de castas.
Para os professores Katherine S. Newman, da Universidade Johns Hopkins (EUA), e Sukhadeo Thorat, da Universidade Jawaharlal Nehru (Índia), o sistema de castas também gera uma alocação "ineficiente" da força de trabalho, ao criar estigmas para determinadas funções, como as relacionadas à tarefa de limpeza, e ao impor barreiras para que dalits exerçam cargos de prestígio.
No artigo Casta e Economia da Discriminação: Causas, Consequências e Soluções , eles destacam que membros de castas "superiores" preferem ficar um período desempregados a atuar em funções tidas como "degradantes" ou "poluidoras" da alma.
Enquanto isso, os dalits são levados ao desemprego ou a atuar em funções marginalizadas.
"Ao impedir a mobilidade da força produtiva, da terra, do capital e da iniciativa privada, o sistema de castas cria segmentações e monopólios. (...) Ao restringir a livre movimentação de mão de obra de acordo com a ocupação, o sistema de castas se torna diretamente responsável pelo desemprego voluntário dos indivíduos de casta elevada, e pelo desemprego forçado de quem está na base (da pirâmide)", dizem.
Alguns dalits, porém, conseguiram superar as barreiras. Em 1997, tomou posse o primeiro presidente dalit da Índia, Kocheril Raman Narayanan.
Eleito pelo Parlamento em julho, o atual presidente da Índia, Ram Nath Kovind, também é dalit, mas sua indicação foi vista com suspeição por ativistas: ele é criticado por nunca ter sido atuante na defesa dos direitos dos dalits. Além disso, a função de presidente na Índia é apenas cerimonial.
E o estigma de ser dalit é complexo: no ano passado, a Índia se chocou com a morte de Rohith Vemula, um estudante de doutorado de 26 anos que se suicidou dentro do campus da Universidade Central de Hyderabad.
Vemula e outros quatro estudantes dalits foram acusados de terem agredido um membro de um grupo estudantil ligado ao partido nacionalista indiano BJP. A universidade havia decido expulsá-los de suas residências estudantis.
Rohith Vemula, um estudante de doutorado de 26 anos, se suicidou dentro do campus da Universidade Central de Hyderabad. Ele integrava movimento de defesa dos direitos dos dalits | Facebook de Rohith Vemula
Rohith Vemula, um estudante de doutorado de 26 anos, se suicidou dentro do campus da Universidade Central de Hyderabad. Ele integrava movimento de defesa dos direitos dos dalits | Facebook de Rohith Vemula
Foto: BBCBrasil.com
Os jovens dalits negaram terem cometido a agressão. Vemula, que cursava sociologia e integrava um grupo de defesa de estudantes dalits, deixou uma carta antes de se matar.
"Meu nascimento foi um acidente fatal. Eu estava sempre com pressa. Desesperado para começar uma vida. Eu não estou triste. Estou só vazio", disse ele. "Eu sempre olhava as estrelas e queria ser um escritor, um escritor de ciência, como Carl Sagan. Mas, no final, essa é a única carta que eu vou escrever."
Em dezembro de 2015, um mês antes de morrer, ele enviou uma carta ao vice-chanceler da universidade reclamando das "humilhações" sofridas pelos dalits ali.
"Por favor, nos dê veneno na hora da admissão para a universidade, em vez de nos humilhar assim", disse ele, na carta.

Insetos, novas texturas e comida impressa em 3D: autor prevê a alimentação do futuro

Professor de Harvard, Pere Castells avalia impacto social e tecnológico da 'nova era da alimentação' e fala da importância de se valorizar as tradições culinárias dos povos, inclusive o brasileiro.

11 nov 2017 

Alimentos nutritivos feitos em impressoras 3D, ampliação do uso de insetos na culinária, novas texturas para facilitar a deglutição da população mais velha e valorização de produtos regionais. Para o espanhol Pere Castells, autor de La Cocina del Futuro (A Cozinha do Futuro, em tradução literal), essas serão algumas das características da alimentação em alguns anos.
Atualmente, Castells se dedica à pesquisa sobre o futuro da alimentação - tanto do ponto de vista social como tecnológico, prático | Foto: Divulgação
Atualmente, Castells se dedica à pesquisa sobre o futuro da alimentação - tanto do ponto de vista social como tecnológico, prático | Foto: Divulgação
Foto: BBCBrasil.com
Castells é químico de formação e já contribuiu com pesquisas para o renomado chef catalão Ferran Adriá, do extinto restaurante El Bulli, além de ter lecionado, em Harvard, no curso de Ciência e Cozinha. Atualmente, se dedica à pesquisa sobre o futuro da alimentação - tanto do ponto de vista social como tecnológico e prático.
Em entrevista à BBC Brasil antes de sua vinda ao país para uma série de palestras, ele afirma que a tecnologia terá grande impacto na forma como nos alimentamos. "A impressão 3D de alimentos nos dará precisão, exatidão e controle - exigências para a tecnologia culinária futura que vão permitir a otimização de processos, a conservação de propriedades nutricionais e a personalização, ou seja: a adaptação da comida às problemáticas de determinadas populações".
Para o pesquisador, um desses problemas que exigirão soluções é o envelhecimento da população, o que forçará a procura pela chamada "dieta suave", com a elaboração de texturizantes para a produção de alimentos de texturas menos rígidas, como purês.
Embora se diga certo da mudança, Castells não arrisca opinar quando uma ferramenta assim estará disponível. "Acredito que ainda falte um tempo até que a tecnologia se consolide e assegure que os cartuchos de alimentos cumpram com as regras de segurança alimentar."
Atualmente, algumas pesquisas já são realizadas para o uso das impressoras 3D na produção de alimentos, e já há algumas versões disponíveis no mercado, mas estão mais voltadas a facilitar o modo de preparo (como o micro-ondas, no início), do que a produção de alimentos nutritivos.
Castells acredita que a tecnologia terá grande impacto na forma como nos alimentamos
Castells acredita que a tecnologia terá grande impacto na forma como nos alimentamos
Foto: BBCBrasil.com
Apesar de ele acreditar que o uso do fogo direto se manterá no futuro, os aparelhos rápidos e econômicos devem ganhar protagonismo, como o próprio micro-ondas, além da tecnologia de cocção por indução e os fornos automáticos e de precisão.
Outra transformação importante que Castells prevê em sua obra é a incorporação de insetos e algas também na alimentação ocidental. "Produtos que agora são considerados residuais para alguns grupos populacionais se transformarão em elementos do cotidiano. Atualmente, se calcula que mais de 2 bilhões de pessoas comam insetos habitualmente e que estes são imprescindíveis na sua dieta. Mas a rejeição aos insetos é cultural e somente ações globais podem resolver essa questão."
E para que essas e outras questões sejam resolvidas, Castells aposta em um elemento que, segundo ele, é cada vez mais importante: o poder midiático da culinária. "Hoje em dia a cozinha tem muita popularidade e é preciso aproveitar isso para desenvolver todos os projetos sociais que pudermos", afirma.

Impacto social

Apesar do impacto tecnológico, Castells destaca que a transformação mais importante da cozinha do futuro será o impacto social - cujo caminho já começou a ser traçado, segundo ele.
"A mudança mais significativa virá com a questão da sustentabilidade - da forma como conservamos o nosso entorno e criamos estruturas que permitam que todas as comunidades do mundo cozinhem e se alimentem. Essa revolução deve vir, pelo menos em parte, da cozinha e das suas influências".
Ele vê o Brasil na dianteira nesse ponto. "Por causa da grande riqueza agrícola brasileira e das vastas tradições culinárias, há muitas regiões que podem se autopromover (e se tornar mais conhecida do restante do mundo), mas acredito que o grande diferencial do Brasil é o potencial de sustentabilidade, e vocês têm o Cerrado e a Amazônia como exemplos que o mundo todo conhece. Fiquei alucinado com o potencial do Cerrado."
"O Cerrado apresenta uma grande biodiversidade e proporciona produtos pouco conhecidos para a cozinha, mas que podem ter um grande futuro. É necessário, porém, considerar uma gestão que priorize a sua sustentabilidade, ligada à divulgação e educação sobre esses produtos".
Para que esse potencial seja aproveitado, o pesquisador não descarta a necessidade de vontade pública e política - e de algumas adaptações nas legislações vigentes a fim de facilitar o trânsito e a comercialização de novos produtos e do escoamento da produção regional.
"Hoje em dia a cozinha tem muita popularidade e é preciso aproveitar isso para desenvolver todos os projetos sociais que pudermos", diz Castells
"Hoje em dia a cozinha tem muita popularidade e é preciso aproveitar isso para desenvolver todos os projetos sociais que pudermos", diz Castells
Foto: BBCBrasil.com
Nesse sentido, ele destaca desde ações para a maior circulação e conhecimento sobre ingredientes encontrados in natura pelo Brasil como frutas, legumes, etc, até a facilitação de transporte de alimentos de pequenos produtores.
"É preciso acreditar que o Brasil tem um grande potencial e criar estruturas sociais e econômicas que tornem possíveis a comercialização de vários produtos da Amazônia e de outras partes do país. Se as leis não se adaptarem à culinária e à alimentação do futuro, as consequências serão gravíssimas".
Além do poder público, Castells reconhece a importância das grandes indústrias alimentícias para garantir que tanto as mudanças tecnológicas como sociais sejam colocadas em prática.
"A sociedade futura não poderá se dar ao luxo de desconfiar de sua indústria alimentar e das cadeias de fast food, que devem melhorar seus produtos e processos para conquistar a confiança da população. A industrialização e as redes de fast food devem mudar a percepção social variando suas receitas para que sejam mais adaptadas às necessidades sociais".

O poder do regional

Mas a cozinha do futuro será acessível a todos? Questionado sobre o acesso das populações mais carentes tanto à alimentação saudável e à diversificação alimentar como às ferramentas tecnológicas da culinária - problemáticas atuais da alimentação -, Castells acredita que haja uma "confusão" de padrões.
Castells prevê em sua obra é a incorporação de insetos e algas também na alimentação Ocidental.
Castells prevê em sua obra é a incorporação de insetos e algas também na alimentação Ocidental.
Foto: BBCBrasil.com
"Não podemos associar a alimentação orgânica ou ecológica como (sendo necessariamente) mais saudável. Produtos mais baratos, regionais e simples podem ser muito saudáveis. Mas precisamos recuperar tradições alimentares".
Ou seja: na avaliação do pesquisador, toda a globalização alimentar deve ser feita respeitando as tradições locais e com cuidado para que a extração dos alimentos não seja descontrolada.
"Todas as tradições deverão ser acompanhadas de tecnologia que permita otimizar melhor os recursos alimentares e culinários. A perda das identidades locais provocaria uma desestruturação culinária e alimentar que dificultaria muito a sustentabilidade futura e a eliminação do déficit alimentar global", diz ele.
"A força midiática da cozinha está produzindo projetos de recuperação da cultura gastronômica das diferentes comunidades do mundo que estavam perdendo parte do patrimônio alimentar", finaliza. 

Comentário deste blogueiro: Não existe "déficit alimentar global", como afirma o autor, mas, sim, um déficit de renda global levando a que cerca de 1 bilhão de pessoas passem fome por falta de recursos financeiros, dada a elevada concentração da renda no mundo causada fundamentalmente pela superpopulação relativa dos países subdesenvolvidos e emergentes. Portanto, não se trata de déficit de oferta de alimentos no mundo, mas de déficit de renda para consumir por parte dos mais pobres.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Suécia é o país mais generoso do mundo, diz ranking

Itália ficou em 16º e o Brasil, na 47º colocação

A Suécia foi eleita o país mais generoso do mundo, de acordo com o "Good Country Index"", ranking divulgado ontem e que mede o quanto cada um dos países listados contribui para o bem do planeta.
O índice avalia anualmente 163 países com base nos dados divulgados pela Organização das Nações Unidas (ONU) e do Banco Mundial. A avaliação de cada nação é feita de acordo com sete áreas: ciência e tecnologia, cultura, paz e segurança internacional, ordem mundial, meio ambiente, prosperidade e igualdade, e por fim, saúde e bem-estar.   
A Suécia se destacou nas áreas de prosperidade e igualdade, cultura, saúde e bem-estar. Atrás dela, estão Dinamarca e Holanda.   
A Itália ficou na 16ª colocação destacando-se por ser o quinto país que mais respeita o meio ambiente. Já o Brasil ocupa na 47ª posição, atrás de países como Barbados, Malásia e Ilhas Maurício.   
Líbia (163º), Guinea Equatorial (162º) e República Centro-Africana (161º) foram os três últimos colocados da lista.

Produto criminal bruto

A notícia está a tornar-se recorrente, mas nunca deixa de nos surpreender. A cada nova investigação jornalística, mais monstruosa se revela a teia internacional de paraísos fiscais.
O que têm em comum Madonna e Bono, Justin Timberlake e Shakira, Nicole Kidman e Martha Stewart? São alguns dos nomes que foram apanhados com milhões de dólares em esquemas offshore para fugir ao pagamento de impostos e que agora foram expostos. Partilhavam os serviços de dois escritórios de advogados - Appleby e a Asiaciti Trust - para a construção de esquemas de evasão fiscal com mais 127 líderes políticos mundiais, empresários, ditadores, artistas e desportistas.
O truque é sempre o mesmo: arranjar uma empresa-fantasma (ou uma sequência de participações em empresas-fantasma) para esconder os verdadeiros proprietários do dinheiro. Omitida a propriedade, tudo pode ser feito. E quando digo tudo, não estou a exagerar.
Muitas vezes, o objetivo é fugir ao pagamento de impostos: comprar aviões, iates e outros bens de luxo sem pagar IVA, por exemplo. Donald Trump comprou um avião utilizando uma empresa-fachada para fugir ao pagamento de IVA. O campeão de Fórmula 1 Lewis Hamilton fez o mesmo. Bono, o vocalista dos U2, que vende a imagem de grande preocupação social, também usou um offshore para não pagar impostos pela compra de um centro comercial na Lituânia.
As multinacionais aproveitam os esquemas de evasão fiscal para aumentar os seus lucros. A Nike, por exemplo, arranjou um esquema jurídico na Holanda para reduzir o pagamento de impostos quase a zero. Mas não está sozinha, multinacionais como a Apple ou a Microsoft recorrem aos mesmos métodos.
Noutros casos, recorre-se aos paraísos fiscais para fazer negócios ilegais. Os Emirados Árabes Unidos usaram uma empresa offshore para adquirir ilicitamente aviões espiões. Um engenheiro canadiano sediou a sua empresa de explosivos num paraíso fiscal para poder receber os pagamentos do ditador iraquiano Saddam Hussein. Um dos membros do governo Trump, o secretário do Comércio, Wilbur Cross, manteve os seus negócios com a petroquímica russa Sibur através de uma empresa-fantasma para fintar as sanções internacionais impostas à Rússia.
Os offshores são ainda utilizados para fugir a regras de transparência. Também nos Estados Unidos da América, na era de Obama, o secretário de Estado Penny Pritzker omitiu a existência de conflitos de interesse no desempenho de cargos públicos ao transferir a propriedade de vários dos seus ativos para empresas offshore. O magnata Robert Mercer construiu o que pode ser considerado um saco azul de 60 milhões de dólares para financiar os movimentos conservadores norte-americanos e apoiar a campanha eleitoral de Donald Trump. A rainha de Inglaterra escondeu um fundo nas ilhas Caimão, a partir do qual controlava anonimamente uma empresa de crédito ao consumo inglesa, a BrightHouse. Esta empresa tem sido criticada por se aproveitar de situações de desespero económico, para depois cobrar taxas de juro que chegam a atingir os 99,9%!
Os casos que exemplifiquei foram agora tornados públicos pelo Consórcio Internacional dos Jornalistas de Investigação (ICIJ, na sigla em inglês). Mas esta fuga de informação não traz nenhuma novidade de fundo. Já todos sabemos que os negócios que têm sido tornados públicos são apenas a ponta do icebergue de um submundo que agora já ninguém consegue esconder. São verdadeiros buracos negros financeiros que servem para esconder e lavar dinheiro, encobrir negócios sujos, fugir aos impostos e, não poucas vezes, financiar organizações terroristas.
Desde primeiros-ministros, oligarcas, ditadores, desportistas, artistas e traficantes de armas e de droga, a lista dos que escondem o seu dinheiro nos offshores é longa e tem o tamanho do rasto de pobreza e desemprego que este gangsterismo financeiro provoca. Porque continuam, então, a existir os paraísos fiscais?
Quando vemos a quantidade de governantes que aparecem na lista fica claro que as leis estão feitas à medida dos abusos. O poder político é conivente com os paraísos fiscais: Jeroen Dijsselbloem, o insultuoso presidente do Eurogrupo, foi ministro das Finanças da Holanda, país que participa impunemente em esquemas internacionais de evasão fiscal.
Os offshores não são legítimos, são alçapões financeiros para fugir à lei e ao pagamento de impostos. Esta indústria da evasão fiscal aumenta as desigualdades e torna os pobres ainda mais pobres. Não deixaremos este tema morrer na praia, não estamos condenados a este roubo.

Economia circular, uma revolução silenciosa

A Terra é o nosso recurso mais precioso. Ainda assim, muitas vezes não o tratamos com a devida atenção e valor que merece. A tragédia dos incêndios florestais que abalou o país neste verão veio alertar mais uma vez para as alterações climáticas e para a necessidade de se operar em todos nós uma mudança de mentalidade que leve a uma transformação do nosso comportamento, contribuindo para proteger o nosso planeta. A redução das emissões de gases com efeito de estufa é o tema que, de resto, vai dominar a 23.ª Conferência da Convenção das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, que está a decorrer em Bona, na Alemanha, e onde se espera que sejam dados passos importantes para estabelecer novas metas de mitigação dos efeitos do aquecimento global.
Este é um objetivo cada vez mais premente, tendo em conta que a economia mundial tem sido construída assente num modelo linear de negócios - extrair-transformar-usar-rejeitar - que está em risco devido à disponibilidade limitada de recursos. Esta preocupação ganha força quando se estima que, em 2050, se possa consumir 186 mil milhões de toneladas de recursos para sustentar uma economia global com nove mil milhões de pessoas. Consumimos mais recursos do que o planeta consegue produzir. E, por essa razão, se todos os países tivessem a mesma pegada ecológica que Portugal, seria necessário o equivalente a 2,3 planetas.
Por outro lado, existe ainda um elevado potencial de crescimento da reciclagem e de reaproveitamento de muitos materiais, reduzindo o desperdício. Por exemplo, a produção de madeira plástica é algo relativamente recente em Portugal e trouxe para o nosso país a capacidade de reciclagem de determinado tipo de plásticos, anteriormente "desperdício" das estações de triagem da recolha seletiva, incorporando no nosso quotidiano diferentes exemplos de produtos finais nomeadamente ao nível do mobiliário urbano.
Mas há muitos outros exemplos. Quando mais de metade das emissões de gases com efeito de estufa a nível global estão relacionadas com a gestão de materiais e recursos, não ficam dúvidas sobre a necessidade de melhorar substancialmente a eficiência e a produtividade dos materiais, medidas essenciais para alcançar o Acordo de Paris.
É preciso pensar numa economia cada vez mais circular, com menor produção de resíduos e melhor aproveitamento do valor dos bens produzidos. A indústria 4.0, considerada por muitos a 4.ª revolução industrial, pode dar um importante contributo. Por exemplo, o design e a engenharia do produto assumem um papel preponderante enquanto impulsionadores do desenvolvimento de produtos inovadores com base em resíduos ou permitirá a sua mais fácil reciclagem. Esta é uma revolução silenciosa que pode beneficiar em muito do conhecimento científico, do desenvolvimento tecnológico e da inovação empresarial. Se a primeira revolução industrial veio de certa maneira contribuir para gerar uma quantidade de resíduos sem precedentes, esta nova revolução tem o poder de os eliminar ou reduzir e ao mesmo tempo criar valor para a economia do país. Está nas nossas mãos.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

3 curiosidades sobre dentes de bebê que você deve desconhecer

6 nov 2017 
Os primeiros anos da vida de um bebê são cheios de novidades, dúvidas e descobertas tanto para o recém-nascido como para seus pais. Embora muitas pessoas acreditem que sabem de tudo sobre esse estágio da vida de uma criança, existe uma série de dados curiosos sobre o desenvolvimento dos dentes que provavelmente seguem sendo um mistério.
Foto: Shutterstock.com
Para lhes contar um pouco mais sobre a cavidade oral dos bebês, a odontopediatra Dra. Martha Basso, membro da Associação Odontológica Argentina, separou estes três dados curiosos:

1. Os dentes começam a se formar durante o segundo mês de vida intrauterina, e no momento do nascimento uma boa parte dos dentes do leite já estão formados. Entretanto, eles só começam a aparecer a partir do segundo semestre de vida.

2. A saúde bucal da mãe é um fator determinante para a saúde bucal do bebê, uma vez que a mãe pode expor à criança uma série de micróbios de sua cavidade oral, assim como pode lhe passar anticorpos para combater diversas doenças.

3. É essencial iniciar uma rotina de higiene da cavidade oral a partir do nascimento do primeiro dente. Para tal, uma das técnicas é esfregar suavemente uma gaze esterilizada pela boca do bebê.

4 ideias de Karl Marx que seguem vivas apesar do fracasso da URSS e do comunismo

Autor de 'O Manifesto Comunista' e 'O Capital' inspirou Revolução Russa, cujo centenário é marcado neste dia 7 de novembro, e movimentos sociais em vários cantos no século 20; mas e seu legado hoje?

7 nov 2017 

Karl Marx, o ideólogo da Revolução Russa, cujo centenário é marcado nesta terça-feira, dia 7 de novembro, é relevante hoje em dia?
Estátua de Marx em Moscou simboliza importância de pensador alemão para história do país
Estátua de Marx em Moscou simboliza importância de pensador alemão para história do país
Foto: BBCBrasil.com
Ainda que o filósofo alemão tenha vivido e trabalhado no século 19, uma época bem diferente da nossa, é indiscutível que dois de seus textos, O Manifesto Comunista (1848), redigido junto com o também filósofo alemão Friedrich Engels, e O Capital (1867), tiveram em um momento determinado da história uma grande influência política e econômica em muitos países e sobre milhões de pessoas.
O surgimento da União Soviética (URSS) após a Revolução Russa foi um exemplo disso. Ninguém nega que o bloco socialista marcou boa parte do século 20, no entanto, também é um fato que ele desmoronou e que o comunismo não se materializou tal qual propuseram Marx e Engels, com o capitalismo vigorando em quase todo o planeta atualmente.
Mas podemos dizer que todas as ideias de Marx estão obsoletas? Ou é possível elencar algumas que se tornaram realidade e seguem vigentes até hoje? A seguir, selecionamos quatro exemplos.

1. O ativismo político

Marx descreve a luta de classes na sociedade capitalista e como o proletariado acabaria tomando o poder das elites dominantes em todo o mundo. O Capital , sua principal obra, é uma tentativa de indicar essas ideias por meio de fatos que podem ser verificados e de análises científicas.
Foi uma mensagem poderosa em um mundo pleno de opressão e desigualdade. "A experiência pessoal de Marx, que viveu na pobreza, conferiu uma grande intensidade à sua análise, que recorreu à Filosofia contra o monstro capitalista que escravizava os seres humanos", explica à BBC um dos seus mais renomados biógrafos, o britânico Francis Wheen.
Marx questionou a ideia de que o capitalismo se autorregulava
Marx questionou a ideia de que o capitalismo se autorregulava
Foto: BBCBrasil.com
Durante o século 20, as ideias de Marx inspirariam revoluções na Rússia, China e Cuba e em muitos outros países onde um grupo dominante foi derrubado e os trabalhadores se apoderaram da propriedade privada e dos meios de produção.
O marxismo foi além e tornou-se uma maneira de interpretar o mundo: a simples ideia de que a história é marcada pela luta entre classes antagônicas também influenciou a literatura, a arte e a educação.
"Hoje em dia, Marx segue relevante como filósofo político. Geração após geração, muitos buscam inspiração nele para suas próprias lutas", diz Albrecht Ritschl, historiador alemão especializado em marxismo e chefe do Departamento de História Econômica da London School of Economics, no Reino Unido.
"Continua-se a falar sobre os temas tratados por Marx. Por exemplo, a globalização. Marx foi um dos primeiros críticos da internacionalização dos mercados. Também se referiu à desigualdade ao alertar que ela estava aumentando no mundo. Poderia se dizer que Marx continua sento atraente e faz parte do discurso político atual."
Ainda que a queda da URSS, em dezembro de 1991, tenha sido um forte golpe contra a teoria marxista (por algum tempo, partidos de esquerda e universidades deram a ela menos importância), a crise financeira global de 2007/2008 voltou a torná-la relevante.
Esse colapso foi um exemplo clássico das recorrentes crises do capitalismo que haviam sido previstas pelo pensador alemão. Desde então, as vendas de O Manifesto Comunista e O Capital crescem em todo o mundo.

2. A recorrência de crises econômicas

Marx questionou a ideia de que o capitalismo se autorregulava. Para ele, não havia uma "mão invisível" que trazia ordem às forças do mercado, como havia postulado o economista e filósofo escocês Adam Smith, considerado o "pai" do capitalismo, em A Riqueza das Nações (1776).
Marx argumentava que o sistema capitalista estava condenado a períodos de crises recorrentes inerentes a eles - hoje, os economistas falam em recessões. "Ainda que ele não tenha sido o único a falar disso, sua ideia original era que cada turbulência levaria a outra pior e assim sucessivamente até a destruição do capitalismo", explica Ritschl.
No século 20, as ideias de Marx inspiraram revoluções na Rússia, China e Cuba e em outros países
No século 20, as ideias de Marx inspiraram revoluções na Rússia, China e Cuba e em outros países
Foto: BBCBrasil.com
A grande depressão econômica de 1929 e as outras subsequentes alcançaram seu auge em 2007/2008, quando o mundo viveu um colapso financeiro inédito em termos de gravidade, impacto e persistência. "É certo que os aspectos mal resolvidos do capitalismo levam a novas crises, mas a ideia determinista de Marx, de que o sistema desmoronaria por causa de defeitos intrínsecos, foi desacreditada", diz Ritschl.
"Mas hoje estamos mais alertas do que nunca diante das turbulências e somos mais cuidados com elas, em parte graças a ele." Ainda que, ao contrário do que previu Marx, as crises não tenham ocorrido nas indústrias pesadas, mas no setor financeiro, esclarece o especialista.

3. Ganhos desmedidos e monopólios

Um aspecto importante da teoria de Marx é a chamada mais-valia: o valor criado pelo trabalhador com sua força laboral. O problema, segundo o pensador alemão, é que os donos dos meios de produção se apropriam da mais-valia e tentam maximizar seus ganhos às custas do proletariado.
Assim, o capital tende a concentrar-se e centralizar-se em poucas mãos e, em contrapartida, isso leva ao desemprego e a uma depreciação dos salários dos trabalhadores. É possível ver isso hoje em dia.
Marx argumentava que o sistema capitalista estava condenado a crises recorrentes até de autodestruir
Marx argumentava que o sistema capitalista estava condenado a crises recorrentes até de autodestruir
Foto: BBCBrasil.com
Por exemplo, uma recente análise da revista britânica The Economist mostra que, enquanto nas últimas décadas o salário dos trabalhadores em países como Estados Unidos se estabilizou, o salário máximo de executivos aumentou significativamente: em vez de ganhar o equivalente a 40 vezes o salário médio dos trabalhadores, passaram a ganhar 110 vezes ou mais.
"A crítica de Marx à acumulação é válida ainda hoje, porque continua a ser um dos pontos fracos do capitalismo", diz Ritschl. "Atualmente, vemos claramente a acumulação desmedida de poder por parte das grandes empresas internacionais e também a formação de monopólios e duopólios. Marx nos alertou sobre esses riscos."

4. A globalização e a desigualdade

Biógrafos de Marx, como Francis Wheen e outros estudiosos de sua obra, dizem que ele se equivocou com sua ideia determinista de que o capitalismo sepultaria a si mesmo ao criar seus próprios coveiros. Mas ocorreu o contrário: com a queda da URSS, o capitalismo não apenas saiu fortalecido como se expandiu pelo mundo.
Ninguém expressa melhor essa ironia do que o pensador marxista Jacques Rancière, professor de Filosofia da Universidade de Paris VIII: "O proletariado, longe de sepultar o capitalismo, o mantém vivo. Trabalhadores explorados e mal pagos, libertados pela maior revolução socialista da história (China), são levados à beira do suicídio para que o Ocidente possa seguir jogando com seus iPads, enquanto isso, o dinheiro chinês financia os Estados Unidos, que, de outra forma, estaria falido."
Mas, se Marx falhou em sua previsão, não errou nas fortes críticas à internacionalização do capitalismo. Em O Manifesto Comunista , ele argumenta que a expansão global do capitalismo se tornaria a principal fonte de instabilidade do sistema internacional, como demonstrariam uma série de crises financeiras nos séculos 19 e 20.
Karl Marx viveu na pobreza pela maior parte de sua vida
Karl Marx viveu na pobreza pela maior parte de sua vida
Foto: BBCBrasil.com
"A necessidade de constantemente expandir mercados para seus produtos persegue a burguesia", sustentam Marx e Engels. "Deve se estabelecer e criar conexões por toda parte. Isso obriga a todas as nações, sob pena de extinção, a adotar o modo burguês de produção."
Por isso, o marxismo tem sido resgatado no debate atual sobre os problemas da globalização. "Hoje, há no mundo muita gente preocupada com a destruição dos mercados locais, na insegurança laboral e da perda de empregos", comenta Ritschl.
"A globalização foi, por exemplo, um dos grandes temas da última eleição americana, na qual dominou uma pergunta que poderia ter sido feita em muitas partes do planeta: o que fazemos com aqueles que prejudicados por ela?"
Está claro que, apesar das previsões equivocadas e ideias obsoletas, Marx colocou em pauta no século 19 vários temas de debate sobre política e economia que seguem vigentes mais de um século depois.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Paradise Papers testam limites entre legal e ilegal

Novos vazamentos lançam luz sobre as atividades fiscais de políticos e de algumas das figuras mais ricas do mundo. Mas a maior parte das questões levantadas parece ser mais de ordem ética do que jurídica.
Primeiro foram os Panama Papers, agora são os Paradise Papers. Acabam de ser revelados os segredos do exótico e nebuloso mundo da contabilidade offshore, onde empresas atendem alguns dos clientes mais ricos e poderosos do mundo em meio a martinis e iates luxuosos.
O imenso vazamento dos Paradise Papers, detalhando alguns dos métodos offshore utilizados por algumas das empresas e indivíduos mais ricos e poderosos do mundo para burlar impostos, é um eco dos Panama Papers, divulgados em abril de 2016
Como da primeira vez, a história do Paradise Papers deverá dominar a agenda de notícias por semanas e meses e trazer constrangimento e intenso escrutínio para pessoas e empresas que costumavam manter seus segredos bem longe dos holofotes.
Mas quanto do que será revelado, por mais surpreendente que seja, é ilegal? Será que as questões a surgir serão mais de ordem ética e moral do que jurídica?
Uma questão de ética
O vazamento dos Panama Papers mexeu em todos aqueles lugares que, aos olhos dos envolvidos, jamais deveriam ter sido revirados. As implicações foram generalizadas e ainda estão em curso. No entanto, como observou em tom irônico o então presidente dos EUA, Barack Obama, na ocasião: "Não há dúvida de que o problema da evasão fiscal global seja geralmente um grande problema. O problema é que muitas dessas coisas são legais, e não ilegais."
E é aí que reside a dificuldade – muito do que foi revelado e será revelado é, aos olhos de muitos, repugnante e pouco edificante, talvez até imoral e antiético. Mas ilegal? Na maioria dos casos, não.
Tome como exemplo o que foi divulgado até agora. Sim, cerca de 10 milhões de libras do dinheiro da rainha Elizabeth foram investidas em empresas nas Ilhas Cayman e nas Bermudas, mas, até o momento, não há indícios de que a lei tenha sido violada.
Da mesma forma, a revelação de que Stephen Bronfman – conselheiro próximo do primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau – ajudou a transferir milhões de dólares para contas e fundos offshore é, também, mais uma questão de ética.
Um aluno de economia aprende que a elisão de impostos é legal, ao tempo que a evasão (ou sonegação fiscal) é ilegal. Essa é a linha que empresas de serviços corporativos offshore, como a Appleby e a Mossack Fonseca – ambas no centro dos dois escândalos – aprenderam a traçar com tanta desenvoltura nas últimas décadas.
Os Paradise Papers revelam não só quem está escondendo patrimônio, mas também a miríade de formas cada vez mais complexas utilizadas para evitar impostos e esconder riqueza em paraísos fiscais offshore.
Muitos dos métodos de "investimento" usados no exterior são complexos, labirínticos. Eles foram criados a partir de métodos desenvolvidos para ajudar determinadas pessoas a evitarem desde o pagamento de impostos em um jato ou iate privado até estruturas corporativas de dimensões incalculáveis.
Mudança ainda distante
Mas por quanto tempo mais isso pode continuar de maneira legal? A tempestade que cercou o vazamento dos Panama Papers e que inevitavelmente envolverá o caso Paradise significa que os políticos serão cada vez mais pressionados a regulamentar uma área cada vez mais problemática. Mas ainda falta ação efetiva.
Existem inúmeras questões jurídicas e morais, além das preocupações fiscais estritamente literais, que surgem como resultado da prática nebulosa inerente a muitos esquemas e estruturas criadas para evitar o pagamento de impostos.
Ou como coloca o artigo principal do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos: "Enquanto ter uma entidade offshore é muitas vezes legal, o sigilo intrínseco atrai lavadores de dinheiro, traficantes de drogas, cleptocratas e outros que desejam operar na penumbra. Empresas offshore, muitas vezes meras 'fachadas' sem empregados ou escritórios, também são usadas em complexas estruturas de evasão fiscal que drenam bilhões de tesouros nacionais".
Além disso, existem as questões éticas e morais acima mencionadas que surgem quando figuras poderosas – particularmente políticos ou aqueles com influência no mundo político – são vistas levando quantidades de riqueza frequentemente obscenas fora do alcance de seus próprios erários nacionais, enquanto supostamente pedem aos outros que atuem no interesse nacional.
O vazamento dos Panama Papers levou mais de 300 economistas a escrever uma carta para os líderes mundiais, pedindo uma mudança na política de tributação global. "A existência de paraísos fiscais não contribui para a riqueza ou o bem-estar global. Eles não têm nenhum propósito econômico útil", escreveram.
Outro ponto é a incômoda proximidade que os links revelam entre empresas offshore e vários criticados regimes estrangeiros. Um dos clientes da Appleby, por exemplo, foi a Glencore, uma empresa que garantiu os direitos de mineração na extremamente corrupta República Democrática do Congo, mas que a Appleby não comentou especificamente sobre.
A realidade é que, embora grande parte do que é revelado através do vazamento de dados é comprometedor em termos éticos, morais e políticos, até agora pouco disso se revelou ilegal. Paraísos fiscais offshore são uma parte aceita da vida, e sua existência contínua há décadas é prova disso.
Os Paradise Papers, assim como os Panama Papers, poderão colocar um grande número de pessoas ricas e poderosas numa saia-justa nas semanas e meses seguintes. Resta saber se a ponto de parar nos tribunais.