O meu blog é HOLÍSTICO, ou seja, está aberto a todo tipo de publicação (desde que seja interessante, útil para os leitores). Além disso, trata de divulgar meu trabalho como economista, escritor e compositor. Assim, tem postagens sobre saúde, religião, psicologia, ecologia, astronomia, filosofia, política, sexualidade, economia, música (tanto minhas composições quanto um player que toca músicas de primeira qualidade), comportamento, educação, nutrição, esportes: bom p/ redação Enem
Como o modelo de colonização lançou as bases para a
difusão da corrupção, que seguiu encontrando terreno fértil para se
manter na esfera pública, alimentada pela falta de punição e pela
manutenção de elites no poder.
Quadro retrata a chegada de Pedro Álvares Cabral no Brasil
A cordialidade da elite do município de Curuzu enganou Policarpo
Quaresma. No início, o personagem central da obra de Lima Barreto chegou
a pensar que a intimação assinada pelo simpático presidente da Câmara
era apenas uma brincadeira. Mas o documento era uma vingança. Ao se
recusar a entrar no jogo da corrupção local, Policarpo se tornou alvo de
represálias.
No romance de 1911, a corrupção na esfera pública
não surge como fenômeno novo, mas aparece como mal característico da
sociedade, o qual a República não demonstra interesse em suprir. As
represálias sofridas por Policarpo escancaram o uso do patrimônio
público para interesses privados. Leia também: "Descrença é parte da história do Brasil" Leia também: "Brasil ainda faz política com afeto"
Essa
confusão tem sua origem séculos antes da publicação do romance. A
ausência de distinção entre público e privado (patrimonialismo) e
favorecimento de indivíduos com base nos laços familiares e de amizade
(clientelismo) foram características do modelo de colonização aplicado
no Brasil.
Tolerada pela Corte e ignorada pela Justiça, a
corrupção encontrou, desta maneira, em solo brasileiro, condições
propícias para sobreviver e se difundir na cultura do novo país durante a
sua formação.
Sem uma ruptura real com as práticas
patrimonialistas e clientelistas, depois das duas primeiras grandes
mudanças no sistema político – a independência e a proclamação da
República – a corrupção continuou ganhando terreno em instituições
públicas e no cotidiano brasileiro.
"Desde a colônia, temos um
Estado que nasce por concessão, no qual a instituição pública é usada em
benefício próprio. A corrupção persiste no Brasil devido a essa
estrutura de colonização", diz a historiadora Denise Moura. Plantando a semente
Diante
da dificuldade de encontrar súditos dispostos a deixar o conforto da
Corte em troca de aventuras no território selvagem recém-descoberto, a
concessão de cargos foi o mecanismo usado por Portugal para garantir seu
domínio e explorar as riquezas da nova colônia.
Para os que
aceitavam vir ao Brasil, esses cargos trariam não somente prestígio
social, mas, principalmente, vantagens financeiras. Durante o período
colonial, o pagamento de propinas a governantes e funcionários reais era
uma prática tolerada e até regulamentada por lei.
A colonização
com as concessões institucionalizou na sociedade a percepção do bem
público como privado. Ao ganhar um cargo público do rei, os
beneficiários tornavam-se donos destes postos e, com o aval da Corte, os
utilizavam para o favorecimento próprio, além de amigos e familiares.
Essas
práticas foram se difundido por todo o país durante os mais de três
séculos do período colonial e, com a manutenção da mesma elite no poder
depois da independência do país, em 1822, elas continuaram a encontrar
um terreno fértil para prosperar.
"A diferença em relação ao
Antigo Regime era que a Coroa não concedia mais mercês que implicavam em
gastos de dinheiro público. Ela usava apenas a moeda simbólica dos
títulos de nobreza para premiar as pessoas. Mas as práticas
clientelistas, ou seja, o favorecimento dos amigos à margem da lei, eram
vistas pelos chefes políticos como indispensáveis para manter e
conquistar apoio político", afirma o historiador José Murilo de
Carvalho.
Pouco mudou neste cenário 67 anos depois da
independência, em outro grande momento da histórica política do Brasil: a
proclamação da República, em 1889. De acordo com Carvalho, o
patrimonialismo e o clientelismo, embora entrassem em conflito como os
valores republicanos, continuaram presentes no novo sistema.
"Os
valores republicanos, sobretudo a valorização da coisa pública e sua
distinção da coisa privada, até hoje não foram totalmente absorvidos no
Brasil por ricos ou pobres. A proclamação da República implicou mudança
na forma de governo, não nos valores", ressalta o historiador.
Fontes
históricas sugerem, por exemplo, a continuidade da prática de
pagamentos de propina, como no caso de concessões para construção de
ferrovias durante a Primeira República. Mesma prática, percepção diferente
Apesar
da propagação de determinadas práticas, ocorreu ao longo da história
uma mudança na maneira como essas ações eram vistas pela sociedade. Um
exemplo seria o pagamento de propina: que foi tolerado no período
colonial e que, mais tarde, passou a ser considerado corrupção. Há
também uma transformação na percepção da própria corrupção em si.
De
acordo com a historiadora Lilia Moritz Schwarcz, a partir da década de
1880, o Império passa pela primeira vez a ser acusado por prática de
corrupção, com casos sendo noticiados na imprensa. As acusações dizem
respeito, porém, ao sistema – e não ao indivíduo.
A percepção da
corrupção associada ao sistema predominou durante o Império e a Primeira
República. Segundo Carvalho, nesta época, na visão de quem denunciava a
prática, a monarquia ou a república eram corruptas por não promoverem o
bem público e serem consideradas despóticas e oligárquicas.
Somente
a partir de 1930 começa uma mudança neste entendimento, que culmina na
alteração do seu sentido, em 1945, com a criação da União Democrática
Nacional (UDN), que passou a associar a corrupção a indivíduos. Anos
depois, acusações de corrupção individual resultaram na queda de Getúlio
Vargas, acusado de ter criado um mar de lama no Catete.
Mesmo
com a mudança de percepção, com indivíduos sendo acusados nominalmente, a
corrupção continuou encontrando terreno para se manter presente na
esfera pública. Essa persistência, de acordo com especialistas, se deve
principalmente à impunidade.
"Outro fator que contribuiu para a
situação atual, inédita no que se refere à dimensão adquirida pela
corrupção, foi a tradição de impunidade dos poderosos, essa sim,
presente desde a Independência, e que atribuo à fragilidade dos direitos
civis. Vários privilégios protegem os poderosos, como o foro
privilegiado, a prisão especial, as múltiplas possibilidade de recurso e
a capacidade de contratar advogados caros", afirma Carvalho.
Segundo
Moura, a impunidade, assim como a corrupção, também faz parte da
cultura brasileira e impediu o combate a essas práticas ao longo da
história. A historiadora afirma que estão ocorrendo avanços nos últimos
anos, mas uma verdadeira mudança ainda deve demorar para acontecer.
"A
sociedade avançou muito no sentido de punir, mas não dá para varrer em
poucos anos uma cultura. Não devemos esperar que a corrupção, no caso
brasileiro, será suprimida da noite para o dia. Para mudar uma
mentalidade são necessários séculos", ressalta Moura.
Apesar de sempre figurar no topo dos
rankings internacionais, país está implantando sistema baseado no
conceito de habilidades; críticos temem que nova abordagem afete
resultados.
BBC BRASIL.com
Há muito tempo a Finlândia é reconhecida pela qualidade de sua
educação. Mas apesar de sempre figurar no topo dos rankings
internacionais, o país passou a repensar seu modelo diante da era
digital. Como parte disso, tem focado seus esforços tanto no ensino de
habilidades quanto no de matérias.
Sala de aula na Finlândia
Foto: BBCBrasil.com
Mas nem todo mundo está feliz - há temores de que as mudanças
enfraqueçam o ensino, como relata a repórter Penny Spiller, da BBC.
Confira o relato dela.
Em um dia gelado em uma região remota no sul da Finlândia, os
pensamentos dos alunos de 12 anos na sala estão em um lugar distante: na
Roma Antiga.
O professor está mostrando uma reconstrução em vídeo - projetada sobre a
lousa inteligente e interativa - do dia em que a erupção do monte
Vesúvio destruiu a cidade de Pompeia. Os estudantes formam grupos e
começam a usar seus minilaptops.
A tarefa dada a eles é comparar a Roma Antiga com a Finlândia moderna.
Um grupo analisa os banheiros romanos e os spas de luxo de hoje; outro
compara o Coliseu aos estádios esportivos atuais. Eles usam impressoras
3D para criar uma versão em miniatura dos edifícios da época, que logo
serão parte de um jogo que envolverá toda a classe.
Trata-se de uma aula de história diferente, conta o professor Aleksis
Stenholm, que trabalha na Escola Hauho, de Ensino Médio. Nela, os alunos
também estão aprendendo habilidades tecnológicas, de investigação,
comunicação e compreensão cultural.
"Cada grupo está virando especialista no seu tema, que logo será apresentado ao resto da sala", explica ele.
O jogo marca o fim do projeto, que é realizado em conjunto com aulas normais.
Ensino do século 21
Há quase duas décadas, a Finlândia é famosa internacionalmente por ter um dos melhores sistemas educacionais do mundo.
Estudantes em escola finlandesa
Foto: BBCBrasil.com
Seus estudantes de 15 anos ficam geralmente nos primeiros lugares dos
rankings do Pisa, teste internacional que avalia conhecimentos em
leitura, matemática e ciências (na edição mais recente, o Brasil amargou
a 66ª posição em matemática, por exemplo, de um total de 72 países
avaliados).
A habilidade da Finlândia em produzir resultados acadêmicos
impressionantes é fascinante para muitos, já que as crianças do país só
começam a frequentar a educação formal aos sete anos.
Além disso, eles têm jornadas mais curtas, férias mais longas, poucos deveres de casa e não fazem provas.
Mas, apesar desse sucesso, a Finlândia está reformando seu sistema,
algo que o país considera vital em uma era digital na qual as crianças
não dependem mais apenas dos livros e das aulas para adquirir
conhecimento.
Em agosto de 2016, tornou-se obrigatório para todas as escolas finlandesas ensinar de maneira mais colaborativa.
Agora, permite-se que os alunos escolham um tema que seja relevante para eles - e suas matérias serão baseadas nessa escolha.
Uma das chaves da mudança foi fazer um uso inovador da tecnologia e de
fontes de conhecimento fora da escola, como especialistas e museus.
O objetivo dessa forma de ensinar - conhecida em inglês como "project
or phenomenon-based learning" ou "aprendizagem baseada em
projetos/fenômenos" - é oferecer às crianças as habilidades que elas
precisam para se desenvolver no século 21.
Assim explica Kirsti Lonka, professora de psicologia educativa na
Universidade de Helsinque. Entre as habilidades que ela ressalta estão o
pensamento crítico, necessário para identificar notícias falsas e
evitar "cyberbullying" (ataques ofensivos pela internet), e a capacidade
técnica de instalar software antivírus e conectar o computador a uma
impressora.
Escola na Finlândia
Foto: BBCBrasil.com
"Tradicionalmente, o ensino é definido com uma lista de matérias e
informações que uma pessoa deve adquirir - por exemplo a matemática ou a
gramática", diz Lonka. "Mas na vida real, nosso cérebro não está
dividido em disciplinas; nós pensamos de uma maneira muito holística."
"E quando você pensa nos problemas do mundo atual - crise global,
imigração, economia, a era da pós-verdade -, realmente não demos às
nossas crianças as ferramentas para lidar com esse universo
intercultural", opina. "Acho que é um grande erro fazer as crianças
acreditarem que o mundo é simples e que se aprenderem certas
informações, estarão prontas para encará-lo."
"Aprender a pensar, aprender a entender - essas são as habilidades que
importam. E elas fazem com que aprender seja muito mais divertido, algo
que promove o bem-estar", conclui.
Tradições escolares
A Escola Hauho está em uma região de bosques e lagos a 40 minutos de
carro da cidade de Hameenlinna. Com apenas 230 alunos de idade entre 7 e
15 anos, tem um ambiente acolhedor.
Os estudantes deixam seus sapatos na entrada. Em algumas salas, em vez
de cadeiras, usam bolas de Pilates. Há barras nas portas para fazer
flexão de braço.
Os professores não se importam com o uso de celular na aula. Consideram
bom que as crianças o valorizem como ferramenta de pesquisa, e não só
para se comunicarem com os amigos.
Nesse dia frio, os alunos mais velhos se colam a seus smartphones na
hora do almoço, enquanto alguns dos mais novos se amontoam lá fora, na
neve, esperando para usar a pista de skate, os campos de futebol ou a
quadra de basquete.
O diretor, Pekka Paappanen, é um forte defensor do sistema de ensino
baseado em projetos e busca um de várias maneiras integrá-lo
oficialmente ao currículo escolar.
"Discutimos ideias com os professores, e depois eu garanto o tempo e o
espaço necessários para que elas as desenvolvam", afirma.
"Acredito que isso dá mais poder aos professores, mas eles precisam se
dar conta de que não podem fazer tudo. Estamos deixando para trás
algumas velhas tradições, mas fazemos isso de forma lenta. O trabalho de
ensinar nossas crianças é muito importante e não podemos cometer
erros", acrescenta.
Temas correntes em aula
Um dos maiores projetos do ano passado foi sobre o tema da imigração,
abordado em um momento em que o fluxo de pessoas entrando na Europa
ocupava todas as capas de jornais de todo o mundo.
Aleksis Stenholm explica que eles escolheram esse tema ao perceber que
muitos de seus alunos tinham pouca experiência pessoal com imigrantes ou
com a imigração.
O tema foi incorporado, por exemplo, às aulas de alemão e de religião.
Os alunos de 15 anos tiveram de fazer pesquisas de opinião com
moradores locais sobre a imigração e visitaram um centro de refugiados
para entrevistá-los.
Eles compartilharam suas descobertas por meio de uma conferência em
vídeo com uma escola na Alemanha, que desenvolveu um projeto similar.
Escola Finlândia
Foto: BBCBrasil.com
"A reação dos alunos foi algo muito forte. Eles começaram a pensar e a
questionar suas próprias opiniões", lembra Stenholm. "Se eu sozinho
tivesse ensinado sobre o tema, usando duas ou três aulas, por exemplo, o
efeito teria sido muito diferente", acrescenta.
Mas funciona?
Apesar das ideias inovadoras, o conceito da "aprendizagem baseada em projetos" tem seus críticos.
Alguns, como o professor de física Jussi Tanhuanppa, temem que esse
método não aprofunde suficientemente o conhecimento sobre cada tema - e
que isso dificulte sua jornada rumo à universidade.
Ele dá aulas em Lieto, nos arredores da cidade de Turku. Conta que, de
um grupo de jovens que aprendia matemática em nível avançado após os 16
anos, 30% precisaram voltar ao nível anterior.
Ele também tem medo de que isso acentue a diferença entre os alunos
mais e os menos capazes - uma diferença que, historicamente, é bastante
pequena na Finlândia.
"Essa forma de ensinar é genial para as crianças mais 'brilhantes', que
entendem quais conhecimentos devem ser levados de um experimento",
opina.
"Dá a elas liberdade de aprender no seu próprio ritmo e de tomar o próximo passo quando estão prontas", acrescenta.
"Mas não é a mesma coisa para os alunos que têm menos capacidade de entender e que precisam de maior assistência", ressalva.
Segundo Tanhuanppa, "a diferença entre os mais brilhantes e os menos
capazes já começou a aumentar. E eu tenho medo que isso só piore."
Outros críticos argumentam que isso pode aumentar a carga de trabalho
dos professores e colocar os mais velhos - dotados de menos
connhecimentos digitais - em desvantagem em relação aos mais novos.
Jari Salminen, da Faculdade de Educação da Universidade de Helsinque,
afirma que métodos de ensino similares foram testados no passado -
inclusive há 100 anos -, mas fracassaram.
"Muitas pessoas de fora me perguntam: 'por que vocês estão mudando o
sistema, se ainda conseguem os melhores resultados?'", conta ele.
"E para mim é um mistério, porque não temos nenhuma informação vinda
dos colégios de que o método baseado em projetos esteja melhorando os
resultados", completa.
Anneli Rautiainen, da Agência Nacional para a Educação da Finlândia,
admite que há preocupações a serem levadas em consideração e afirma que
mudanças estão sendo introduzidas de maneira gradual.
Por enquanto, de acordo com as novas regras, as escolas só precisam incorporar um projeto por ano para seus alunos.
Escola na Finlândia
Foto: BBCBrasil.com
"Queremos encorajar os professores a ensinar assim e os alunos a aprenderem, mas estamos começando devagar", diz.
"Ainda se ensinam matérias e existem metas para cada uma delas, mas
também queremos que sejam introduzidas as habilidades nesse tipo de
aprendizagem", destaca.
Mas quais são os resultados?
"Não somos muito amantes das estatísticas neste país, em termos gerais", conta Rautiainen.
"Então não estamos planejando medir o sucesso disso, ao menos por
enquanto. Esperamos que possamos perceber isso nos resultados de
aprendizagem das nossas crianças e nas avaliações internacionais, como o
Pisa."
Ainda que nem todos estejam convencidos dessa revolução do ensino
finlandês, a maioria dos alunos e pais de Hauho a vê como positiva.
Sara, de 14 anos, disse que as aulas "não cansam tanto e que são muito
mais interessantes". Ana, também de 14 anos, conta que sua irmã mais
velha tem inveja dela porque "a escola é muito mais divertida agora do
que era na sua época".
Escola na Finlândia
Foto: BBCBrasil.com
A mãe Kaisa Kepsu garante que a maioria dos pais que conhece vê com bons olhos as mudanças feitas no currículo.
"Houve uma discussão mais ampla sobre a necessidade de garantir que as
crianças ainda estejam aprendendo as informações mais básicas, e eu
concordo com isso", afirma.
"Mas também é importante motivá-los mais e fazer que o mundo seja mais
interessante. Não vejo mal nenhum em tornar a escola mais divertida",
conclui.
O que é diferente nas escolas finlandesas?
- A profissão do professor é altamente respeitada e bem remunerada
- Não há inspeções escolares ou avaliações
- O sistema escolar está muito centralizado e a maioria das escolas é financiada pelo Estado
- A jornada escolar é curta e as férias de verão duram dez semanas
- As crianças são avaliadas pelos professores. O único exame nacional é para aqueles que estudam até os 18 anos
- O sucesso finlandês é atribuído a um tradicional apreço pelo ensino e
pela leitura; o fato de o país ter uma população pequena e praticamente
homogênea também contribui
- Ainda que continue nas posições do topo, a Finlândia caiu nos rankings do Pisa nos últimos anos
- Assim como outros países, enfrenta desafios de restrições orçamentárias e da crescente imigração
Comida, transporte, matérias-primas, lixo: há séculos a
humanidade trata os mares como se fossem inesgotáveis e invulneráveis. A
consciência sobre a necessidade de protegê-los aumenta, mas ainda há
muito o que fazer.
Surfar, velejar, nadar, passear pelas praias: claro, os seres humanos
adoram os mares – além de precisarem deles para sobreviver. Apesar
disso, tratam da pior forma possível essas extensões de água que cobrem
mais da metade do planeta.
A DW dá uma olhada de perto nas cinco
maiores ameaças de fabricação humana para os oceanos, e por que se
deveria tentar salvá-los o mais breve possível – enquanto ainda se tem
chance. 1. Sobrepesca exterminadora
Peixes
e frutos do mar são alimento saudável. Mais ainda: em todo o mundo,
sobretudo em nações em desenvolvimento, muitos dependem dessas fontes
proteicas marinhas para sobreviver. Antigamente a humanidade só pescava
tanto quanto a natureza podia repor. Mas esse equilíbrio foi destruído.
Segundo
a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO),
no ano 2015 foram pescadas mais de 81 milhões de toneladas de peixes e
frutos do mar – 1,7% a mais do que no ano anterior. Quase um terço dos
estoques pesqueiros do mundo já foi esgotado, mais da metade está no
limite máximo.
Pesca descontrolada está esgotando as reservas de alimento humano nos oceanos
As
nações de maior atividade pesqueira em 2015 foram a China, Indonésia e
os Estados Unidos, com 23 países, a maioria industrializados,
respondendo por 80% das pescas em todo o mundo. Durante muito tempo
considerou-se que a solução seria criar peixes em culturas aquáticas. Na
realidade, porém, elas até pioram a situação.
Ironicamente, a
criação industrial em massa, por exemplo em grandes gaiolas ao longo dos
litorais, exige enormes quantidades de peixes e frutos do mar – afinal,
os animais nos viveiros também precisam ser alimentados. Além disso, os
excrementos e medicamentos das fazendas pesqueiras poluem as águas
vizinhas e propiciam a disseminação de doenças.
Para corrigir a
situação, seriam necessárias quotas de pesca rigorosas e, no geral, uma
melhor gestão das reservas pesqueiras. As populações têm melhores
chances de recuperar se forem deixadas em paz por um período. Mas para
que isso funcione, é preciso agir a tempo.
Do ponto de vista do
consumidor, o conselho seria só comer peixes e frutos do mar em
quantidades moderadas, atentando para que tipo de animal vem de que
parte do mundo. 2. Quando o mar fica azedo
Embora
as emissões de dióxido de carbono tenham se multiplicado desde o início
da industrialização, a concentração do gás poluidor na atmosfera só
aumentou 40%. O motivo é que os oceanos assimilam CO2, que é solúvel em
água, e assim desaceleram a mudança climática. Só que o preço ecológico
também é alto.
Ostras são particularmente sensíveis a oscilações de pH
Quando
o CO2 se dissolve na água, gera-se ácido carbônico. Em 1870, o pH
(coeficiente de acidez) médio do mar era 8,2. Atualmente está em 8,1,
devendo, segundo certos prognósticos, chegar a 7,7 até o ano 2100.
Essa
variação parece mínima, mas significa que os oceanos conterão 150% mais
acidez, tornando inviável a vida para muitas espécies. Sobretudo certos
moluscos deixarão de se reproduzir, acabando por extinguir-se. Também
extremamente sensível à acidificação é o plâncton, fonte microscópica de
alimento para numerosos peixes e mamíferos marinhos.
Em 2005, o
declínio das fazendas de ostras no litoral da Califórnia, EUA, ilustrou
de forma dramática as consequências desse processo: a água do mar
tornou-se ácida demais para as larvas das ostras, que foram exterminadas
– e com elas, todo esse setor industrial na região.
Para conter a acidificação dos oceanos é preciso reduzir as emissões de dióxido de carbono, o mais rápido possível. 3. Mar morno e pálido
Os
mares não absorvem apenas CO2, mas também cerca de 93% do calor
produzido pelas emissões de gases-estufa. A consequência inevitável,
contudo, são águas oceânicas mais quentes.
Entre 1900 e 2008, a
temperatura superficial dos oceanos subiu, em média, 0,62º C; em certas
zonas, como o Mar da China, até 2,1º C. Para muitos organismos
submarinos, como os corais, isso representa um grande problema.
Corais
são animais que desenvolvem carapaças rígidas de calcário e mantêm
simbiose com algas coloridas e ativamente fotossintéticas, as quais
vivem em seu interior. No entanto, quando a água fica quente demais, os
corais deixam de prover as substâncias necessárias às algas, as expelem e
acabam por morrer por falta de alimento. Esse processo, denominado
branqueamento dos corais, já matou um terço da Grande Barreira, na
Austrália.
Só uma redução das emissões de CO2 poderia evitar o
aumento continuado das temperaturas marítimas. Paralelamente, cientistas
tentam desenvolver variedades de coral mais resistentes a temperaturas
mais elevadas.
Grande parte do lixo plástico volta às costas, como nessa praia de Gana
4. Sujeira que mata
Durante
muito tempo os oceanos constituíram um gigantesco lixão para
navegadores, navios de cruzeiro e cidades costeiras. Atualmente, embora a
atitude tenha se modificado profundamente, continua se acumulando uma
enorme quantidade de resíduos nas águas internacionais.
Nos
oceanos formaram-se cinco grandes vórtices de lixo, em que as correntes
concentram trilhões de fragmentos de plástico e outros resíduos.
Calcula-se sua superfície total entre 700 mil e 15 milhões de
quilômetros quadrados.
No entanto, 99% do lixo nunca chega a
esses redemoinhos gigantes, sendo lançado de volta nos litorais, onde
ameaçam aves, tartarugas e outros animais marinhos. Além disso, grande
parte se decompõe em partículas minúsculas. O microplástico resultante se deposita então no fundo do mar ou no gelo dos polos.
Branqueamento já dizima parte dos recifes de coral do planeta
Também
os nitratos e fosfatos da agropecuária industrial desaguam nos oceanos,
levados pelos rios. Eles estimulam o crescimento de algas que, ao
morrerem, são decompostas por bactérias. O processo reduz o oxigênio
contido na água, a ponto de criar "zonas da morte" em que nada mais
cresce.
As águas residuais da indústria continuam sendo lançadas
nos mares, levando consigo substâncias químicas e metais perigosos como
chumbo, mercúrio e elementos tóxicos orgânicos de difícil decomposição.
Estes se concentram na gordura de baleias, tubarões e outros animais, no
fim da cadeia alimentar.
Entre as iniciativas para debelar as
montanhas de lixo oceânico está a fundação holandesa The Ocean Cleanup,
que em 2018 começará a retirar o lixo plástico do grande redemoinho do
Oceano Pacífico, usando um dispositivo flutuante desenvolvido
especialmente.
Além disso, é crucial reduzir o despejo de
plástico na natureza e adotar leis mais rigorosas sobre o tratamento das
águas residuais. 5. Caça aos tesouros marinhos
A
grande corrida aos mares provavelmente ainda está por vir. Pois, nas
profundezas dos oceanos, incontáveis riquezas esperam para ser
extraídas, a fim de satisfazer a cobiça e a sede de progresso humanas.
Um exemplo são os nódulos de manganês, elemento empregado na produção de
ligas metálicas, sobretudo de aço inoxidável.
Nódulos de manganês são cobiçados para produção de ligas metálicas
Calcula-se
que haja mais de 7 bilhões de toneladas de manganês no fundo dos mares –
mais do que em terra. Diversos países já reivindicaram com sucesso o
uso do solo marinho, para poder começar com a extração num futuro
próximo. Outros metais valiosos, como níquel, tálio e terras raras, são
encontrados nas profundezas.
No entanto, as áreas contendo as
rochas compostas de ferro e hidróxido de manganês são também focos de
biodiversidade. Em 2016 mesmo, descobriu-se num desses campos uma espécie inédita de polvo,
de aparência fantasmagórica, que os cientistas apelidaram "Casper" (o
"Gasparzinho, o Fantasminha Camarada" das histórias em quadrinhos).
Atividades
mineradoras nessas áreas ameaçariam os ricos, porém sensíveis
ecossistemas. Somente a proibição total ou, no mínimo, regras rigorosas
para a mineração marítima de profundeza podem evitar o pior.