terça-feira, 14 de abril de 2020

Dez tendências para o mundo pós-pandemia

Consumir por consumir sai de moda, morar perto do trabalho, atuar mais no coletivo com colegas de empresas, ou vizinhos do bairro. A Covid-19 vai rever valores e mudar hábitos da sociedade

Centro da capital de São Paulo onde o Governo do Estado prorrogou até 22 de abril a quarentena.
Centro da capital de São Paulo onde o Governo do Estado prorrogou até 22 de abril a quarentena.FERNANDO BIZERRA JR / EFE 
A Covid-19 mudou nossas vidas. Não estou falando aqui simplesmente da alteração da rotina nesses dias de isolamento, em que não podemos mais fazer caminhadas no Minhocão ou ir aos nossos bares e restaurantes preferidos. Sim, tudo isso mudou nosso cotidiano —e muito. Mas o meu convite para você é para pensarmos nas mudanças mais profundas, naquelas transformações que devem moldar a realidade à nossa volta e, claro, as nossas vidas depois que o novo coronavírus baixar a bola. Por isso talvez seja melhor mudar o tempo verbal da frase que abre este texto e dizer que o coronavírus vai mudar as nossas vidas. Mas como? Que cenários prováveis já começam a emergir e devem se impor no mundo pós-pandemia?
O mundo pós-pandemia será diferente
Entender que mundo novo é esse é importante para nos prepararmos para o que vem por aí. Porque uma coisa é certa: o mundo não será como antes, conforme nos alertou o biólogo Átila Iamarino.
“O mundo mudou, e aquele mundo (de antes do coronavírus) não existe mais. A nossa vida vai mudar muito daqui para a frente, e alguém que tenta manter o status quo de 2019 é alguém que ainda não aceitou essa nova realidade”, disse nesta entrevista para a BBC Brasil Átila, que é doutor em microbiologia pela Universidade de São Paulo e pós-doutor pela Universidade Yale. “Mudanças que o mundo levaria décadas para passar, que a gente levaria muito tempo para implementar voluntariamente, a gente está tendo que implementar no susto, em questão de meses’, diz ele.

Pandemia marca o fim do século 20

Ainda nessa linha, havia uma visão entre especialistas de que faltava um símbolo para o fim do século 20, uma época altamente marcada pela tecnologia. E esse marco é a pandemia do coronavírus, segundo a historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz, professora da Universidade de São Paulo e de Princeton, nos EUA, em entrevista ao Universa. “[O historiador britânico Eric] Hobsbawm disse que o longo século 19 só terminou depois da Primeira Guerra Mundial [1914-1918]. Nós usamos o marcador de tempo: virou o século, tudo mudou. Mas não funciona assim, a experiência humana é que constrói o tempo. Ele tem razão, o longo século 19 terminou com a Primeira Guerra, com mortes, com a experiência do luto, mas também o que significou sobre a capacidade destrutiva. Acho que essa nossa pandemia marca o final do século 20, que foi o século da tecnologia. Nós tivemos um grande desenvolvimento tecnológico, mas agora a pandemia mostra esses limites”, diz Lilia.

Coronavírus, um acelerador de futuros

Vários futuristas internacionais dizem que o coronavírus funciona como um acelerador de futuros. A pandemia antecipa mudanças que já estavam em curso, como o trabalho remoto, a educação a distância, a busca por sustentabilidade e a cobrança, por parte da sociedade, para que as empresas sejam mais responsáveis do ponto de vista social.
Outras mudanças estavam mais embrionárias e talvez não fossem tão perceptíveis ainda, mas agora ganham novo sentido diante da revisão de valores provocada por uma crise sanitária sem precedentes para a nossa geração. Como exemplos, podemos citar o fortalecimento de valores como solidariedade e empatia, assim como o questionamento do modelo de sociedade baseado no consumismo e no lucro a qualquer custo.
“A vida depois do vírus será diferente”, disse ao site Newsday a futurista Amy Webb, professora da Escola de Negócios da Universidade de Nova York. “Temos uma escolha a fazer: queremos confrontar crenças e fazer mudanças significativas para o futuro ou simplesmente preservar o status quo?”

Efeitos do coronavírus devem durar quase dois anos

As transformações são inúmeras e passam pela política, economia, modelos de negócios, relações sociais, cultura, psicologia social e a relação com a cidade e o espaço público, entre outras coisas.
O ponto de partida é ter consciência de que os efeitos da pandemia devem durar quase dois anos, pois a Organização Mundial de Saúde calcula que sejam necessários pelo menos 18 meses para haver uma vacina contra o novo. Isso significa que os países devem alternar períodos de abertura e isolamento durante esse período.
Diante dessa perspectiva, como ficam as atividades de lazer, cultura, gastronomia e entretenimento no centro e em toda a cidade durante esse período? O que mudará depois desse período? São questões ainda em aberto, mas há sinais que nos permitem algumas reflexões.
Para entender essas e outras questões e identificar os prováveis cenários, procurei saber que tendências os futuristas, pesquisadores e bureaus de pesquisas nacionais e internacionais estão traçando para o mundo pós-pandêmico. A partir dessas leituras e também de um olhar para as questões que dizem respeito ao centro de São Paulo e à vida urbana em geral, fiz uma lista com algumas dessas tendências, que você pode ler a seguir.

Confira as 10 tendências para o mundo pós-pandemia

1. Revisão de crenças e valores
A crise de saúde pública é definida por alguns pesquisadores como um reset, uma espécie de um divisor de águas capaz de provocar mudanças profundas no comportamento das pessoas. “Uma crise como essa pode mudar valores”, diz Pete Lunn, chefe da unidade de pesquisa comportamental da Trinity College Dublin, em entrevista ao Newsday.
“As crises obrigam as comunidades a se unirem e trabalharem mais como equipes, seja nos bairros, entre funcionários de empresas, seja o que for... E isso pode afetar os valores daqueles que vivem nesse período —assim como ocorre com as gerações que viveram guerras”.
Já estamos começando a ver esses sinais no Brasil —e no centro de São Paulo, com vários exemplos de pessoas que se unem para ajudar idosos, por exemplo.
2. Menos é mais
A crise financeira decorrente da pandemia por si só será um motivo para que as pessoas economizem mais e revejam seus hábitos de consumo. Como diz o Copenhagen Institute for Futures Studies, a ideia de “menos é mais” vai guiar os consumidores daqui para frente.
Mas a falta de dinheiro no momento não será o único motivo. As pessoas devem rever sua relação com o consumo, reforçando um movimento que já vinha acontecendo. “Consumir por consumir saiu de ‘moda’”, escreve no site O Futuro das Coisas Sabina Deweik, mestre em comunicação semiótica pela PUC e pesquisadora de comportamento e tendências.
O outro lado desse processo é um questionamento maior do modelo de capitalismo baseado pura e simplesmente na maximização dos lucros para os acionistas. “O coronavírus trouxe para o contexto dos negócios e para o contexto pessoal a necessidade de revisitar as prioridades. O que antes em uma organização gerava resultados financeiros, persuadindo, incentivando o consumo, aumentando a produção e as vendas, hoje não funciona mais”, diz Sabina.
“Hoje, faz-se necessário pensar no valor concedido às pessoas, no impacto ambiental, na geração de um impacto positivo na sociedade ou no engajamento com uma causa. Faz-se necessário olhar definitivamente com confiança para os colaboradores já que o home office deixou de ser uma alternativa para ser uma necessidade. Faz-se necessário repensar a sociedade do consumo e refletir o que é essencial.”
3. Reconfiguração dos espaços do comércio
A pandemia vai acentuar o medo e a ansiedade das pessoas e estimular novos hábitos. Assim, os cuidados com a saúde e o bem-estar, que estarão em alta, devem se estender aos locais públicos, especialmente os fechados, pois o receio de locais com aglomeração deve permanecer.
“Quando as pessoas voltarem a frequentar espaços públicos, depois do fim das restrições, as empresas devem investir em estratégias para engajar os consumidores de modo profundo, criando locais que tragam a eles a sensação de estar em casa”, diz um relatório da WGSN, um dos maiores bureaus de pesquisas de tendências do mundo.
Eis um ponto de atenção para bares, restaurantes, cafeterias, academias e coworkings, que devem redesenhar seus espaços para reduzir a aglomeração e facilitar o acesso a produtos de higiene, como álcool gel. Os espaços compartilhados, como coworkings, têm um grande desafio nesse novo cenário.
4. Novos modelos de negócios para restaurantes
Uma das dez tendências apontadas pelo futurista Rohit Bhatgava é o que ele chama de “restaurantes fantasmas”, termo usado para descrever os estabelecimentos que funcionam só com delivery. Como a possibilidade de novas ondas da pandemia num futuro próximo, o setor de restaurantes deve ficar atento a mudanças no seu modelo de negócios, e o serviço de entrega vai continuar em alta e pode se tornar a principal fonte de receita em muitos casos.
5. Experiências culturais imersivas
Como resposta ao isolamento social, os artistas e produtores culturais passaram a apostar em shows e espetáculos online, assim como os tours virtuais a museus ganharam mais destaque. Esse comportamento deve evoluir para o que se pode chamar de experiências culturais imersivas, que tentam conectar o real com o virtual a partir do uso de tecnologias que já estão por aí, mas que devem se disseminar, como a realidade aumentada e virtual, assistentes virtuais e máquinas inteligentes.
De acordo com o estudo Hype Cycle, da consultoria internacional Gartner, as experiências imersivas são uma das três grandes tendências da tecnologia. Destacamos aqui a área cultural, mas isso também se estende a outros setores, como esportes, viagens a varejo, conforme indica o relatório A Post-Corona World, produzido pela Trend Watching, plataforma global de tendências.
6. Trabalho remoto
O home office já era uma realidade para muita gente, de freelancers e profissionais liberais a funcionários de companhias que já adotavam o modelo. Mas essa modalidade vai crescer ainda mais. Com a pandemia, mais empresas —de diferentes portes— passaram a se organizar para trabalhar com esse modelo. Além disso, o trabalho remoto evita a necessidade de estar em espaços com grande aglomeração, como ônibus e metrôs, especialmente em horários de pico.
7. Morar perto do trabalho
Essa já era uma tendência, e morar no centro de São Paulo se tornou um objeto de desejo para muitas pessoas justamente por conta disso, entre outros motivos. Mas, com o receio de novas ondas de contágio, morar perto do trabalho, a ponto de ir a pé e não usar transporte público, deve se tornar um ativo ainda mais valorizado.
8. Shopstreaming
Com o isolamento social, as lives explodiram, principalmente no Instagram. As vendas pela internet também, passando a ser uma opção também para lojas que até então se valiam apenas do local físico. Pois pense na junção das coisas: o shopstreaming é isso. Uma versão Instagram do antigo ShopTime.
9. Busca por novos conhecimentos
Num mundo em constante e rápida transformação, atualizar seus conhecimentos é questão de sobrevivência no mercado (além de ser um prazer, né?). Mas a era de incertezas aberta pela pandemia aguçou esse sentimento nas pessoas, que passam, nesse primeiro momento, a ter mais contato com cursos online com o objetivo de aprender coisas novas, se divertir e/ou se preparar para o mundo pós-pandemia. Afinal, muitos empregos estão sendo fechados, algumas atividades perdem espaço enquanto outros serviços ganham mercado.
10. Educação a distância
Se a busca por conhecimentos está em alta, o canal para isso daqui para frente será a educação a distância, cuja expansão vai se acelerar. Neste contexto, uma nova figura deve entrar em cena: os mentores virtuais. A Trend Watching aposta que devem surgir novas plataformas ou serviços que conectam mentores e professores a pessoas que querem aprender sobre diferentes assuntos.

Como será a economia após o coronavírus?

Crise causada pela Covid-19 prevê novas regras nas relações comerciais, nos hábitos de consumo e no peso do Estado frente ao mercado

Linha de produção de luvas de vinil descartáveis em uma fábrica na China.
Linha de produção de luvas de vinil descartáveis em uma fábrica na China.WAN SC / Barcroft Media via Getty Images
O ser humano e os povos estão atravessados por cicatrizes e memória. Ambos constroem o que serão e o que foram. A hiperinflação da República de Weimar ainda pesa nas políticas alemãs e sua austeridade; a Grande Depressão deixou nos norte-americanos um sentimento de “não desperdiçar” (waste not, want not); e a crise de 2008 e seu legado de precariedade e iniquidade ainda empobrecem a vida de milhões de pessoas em muitas democracias ocidentais. Mas todo desastre é diferente. O crash de 1929 e a Segunda Guerra Mundial definiram as bases do moderno Estado de bem-estar, e a epidemia de gripe de 1918 ajudou a criar os sistemas nacionais de saúde em muitos países europeus.
Por isso, cada choque econômico deixa uma herança de recordações e feridas. Também de mudanças. É impossível pensar que essa inimaginável experiência de máscaras, distanciamento social, perdas humanas e cancelamento da vida não trará consequências após o final da pandemia. É cedo para saber exatamente quais. Quanto mais tempo durar a crise, maior será o dano econômico e social. Os analistas podem demorar anos e até décadas para explicar todas as implicações do que se vive nesses dias. O paradoxal, ou não, é que esse vírus explora as características da vida que nós mesmos nos demos. Superpopulação, turismo maciço, cidades imensas, viagens aéreas constantes, redes de fornecimento a milhares de quilômetros e uma extrema desigualdade na divisão da riqueza e nos sistemas de saúde públicos.
Tudo isso deixou exposta a fragilidade do homem. Essa foi a autêntica placa de Petri da Covid-19. O que virá quando passar? “A epidemia traz uma mentalidade de tempos de guerra, mas uma mentalidade que une todo o planeta do mesmo lado. Os anos de guerra são períodos de uma grande coesão interior dos países e da preocupação pelos outros”, diz Robert J. Shiller, prêmio Nobel de Economia em 2013. E acrescenta. “Um efeito a longo prazo dessa experiência pode ser instituições econômicas e políticas mais redistributivas: dos ricos aos pobres, e com maior preocupação pelos marginalizados sociais e idosos”.

Mais informações

É uma esperança. Evidentemente, a crise atual não é tão catastrófica como uma guerra mundial e a devastação que nossos avós vivenciaram na Guerra Civil espanhola, mas seus efeitos econômicos serão enormes. Não tem precedentes em tempos de paz. O acontecimento mais parecido com o qual podemos compará-la, o crash financeiro de 2008, gestou uma mudança intensa na economia do planeta. Fomos de um crescimento relativamente alto e uma inflação moderada a outro anêmico e com deflação. Mas o mundo nunca mais voltou a ser igual ao que havia sido antes desse ano. “O coronavírus provocará uma recessão muito superior à de 2008-2009, já que a dívida atual da Grécia é de 175,2% de seu PIB, e em níveis igualmente altos, que se aproximam de 100% do PIB, estão a Itália, França e a Espanha”, alerta o economista Guillermo de la Dehesa.
Evidentemente, causará dor durante muito tempo. “Provavelmente a maioria das economias demorará de dois a três anos para voltar aos níveis de produção que tinha antes da epidemia”, diz a consultoria IHS Markit. Ainda que existam outros números mais importantes. O epidemiologista da Universidade de Harvard, Marc Lipsitch, disse ao The Wall Street Journal que prevê o contágio de 40% a 70% da população adulta em um ano.
A verdade econômica se rege sob suas próprias leis da atração. Mudanças chegam. As grandes empresas terão que repensar onde e como produzem. Muitas moléculas são fabricadas na China, refinadas na Índia e, após uma longa viagem, terminam nas farmácias e hospitais europeus. “Quando a crise passar ocorrerá uma reindustrialização da Europa e dos Estados Unidos, pelos problemas nas redes de abastecimento que muitas empresas estão sofrendo nesses momentos”, prevê César Sánchez-Grande, diretor de análise e estratégia da Ahorro Corporación Financiera.
As empresas perceberam o perigo que significa somar dependência e distância. Mas é certo que as redes de produção nacionais também se paralisam no caso de uma pandemia. Dá no mesmo. Através do planeta circula uma corrente de desconexão. “Até mesmo antes da crise muitas multinacionais com sede nos Estados Unidos já estavam reconsiderando sua dependência da China. Primeiro pelos custos, mas além disso pela guerra comercial e os impostos”, diz Karen Harris, diretora geral da consultoria Bain & Company´s. Não é que a globalização se reverterá. “É uma realidade que não volta atrás”, afirma José María Carulla, diretor do serviço de estudos da consultoria de riscos Marsh. Mas terá fraturas. O capitalismo também? Porque sua essência é o movimento constante de pessoas e mercadorias. As bases, certamente, de toda a pandemia. E como responderá uma geração, especialmente jovem, cuja única vivência do capitalismo é uma crise? Sairá às ruas?
Ainda é cedo para saber. Os paralelos e os meridianos do mundo, entretanto, aparentemente formarão uma trama mais fina e menos resistente. A conjunção do Brexit, a epidemia e a guerra comercial entre a China e os Estados Unidos pressagiam anos complicados à aldeia global. “O bem-estar mundial será muito maior se os países optarem pela cooperação, a ajuda e a solidariedade em momentos de crise, e por compartilhar informação e avanços científicos em vez de fazê-lo pela autarquia e o confronto”, diz Rafael Doménech, responsável de análises econômicas do BBVA Research.

Eleições nos EUA

Uma das grandes mudanças pode chegar em novembro na Casa Branca. As crises não reelegem os presidentes. Ford perdeu contra Carter após a crise do petróleo de 1973, Carter perdeu contra Reagan na segunda crise do petróleo de 1979 e Bush perdeu contra Clinton após a invasão do Kuwait. O economista Nouriel Roubini lembrou desses fatos por esses dias ―ele previu o crash de 2008― na revista Der Spiegel. Essas cicatrizes e essa memória deixam a sensação de que os Estados Unidos já não serão o líder do mundo. “Pela primeira vez em sua história, a maior potência do planeta renunciou à liderança da luta sanitária e econômica enquanto a China responde com uma campanha muito agressiva para melhorar sua imagem pública”, diz Federico Steinberg, analista principal do Real Instituto Elcano.
Onde está a força das listras e o brilho das estrelas? “Washington falhou no teste da liderança e o mundo está pior por isso”, se lamenta no Foreign Policy Kori Schake, diretora de estudos de política exterior e defesa do American Enterprise Institute. Mas a Europa também não está imune a essa atração do egoísmo. A UE deve proteger seus 500 milhões de habitantes ou muitos governos podem exigir o retorno de certos poderes. É impossível descartar, vimos, que os próximos meses tragam um maciço repúdio político. “Dependerá”, diz Kathryn Judge, professora na Escola de Leis da Universidade de Columbia, “de até que ponto o preço é alto em termos de sofrimento humano, vidas perdidas e a inevitável destruição econômica [o centro de estudos Brookings Institution fala de um custo global de 2,3 trilhões de dólares (12 trilhões de reais)] que virá. Porque o auge do populismo que varreu o planeta após 2008 revela a maneira profunda com que a indignação pública pode mudar o mundo”.
A história alerta que os desastres incendeiam a xenofobia e o racismo. E é cada vez mais comum encontrar avisos dessa rachadura. Até mesmo no Velho Continente já prospera o relato do “norte industrioso” e do “sul preguiçoso”. Especialmente pela dificuldade que a Europa mostra para organizar uma resposta coordenada. “A pandemia está evidenciando, mais uma vez, a disfunção do euro, que coloca os países membros em uma camisa de força macroeconômica. A menos que a União Europeia possa reunir a vontade de se transformar em uma verdadeira união fiscal e política, a zona do euro começará a se separar”, prevê Paul Sheard, especialista principal do Centro de Negócios e Governo Mossavar-Rahmani na Escola Kennedy da Universidade Harvard.

Sistemas de saúde

Nessas semanas proliferam inúmeros intérpretes da tragédia, adivinhadores do drama, quiromantes do descontentamento e até os que também, como o político democrata norte-americano Bernie Sanders, são capazes de revelar tudo em seis palavras: “Healthcare is a basic human right”. “O sistema de saúde é um direito fundamental do ser humano”. Esse é um legado do vírus. Existem muitos outros. Mais trabalho em casa, auge dos pagamentos eletrônicos, maiores controles nas fronteiras, seguros caros e complexos, educação e medicina à distância, e menos viagens transoceânicas e convenções. “Precisamos pensar como tornar mais eficiente o sistema de saúde, porque ao fazê-lo se torna mais econômico, viável e universal”, propõe Carsten Menke, responsável pela área de next generation research do banco privado Julius Baer. Sua narrativa inclui telemedicina, monitoramento do paciente em casa após uma cirurgia e medicamentos personalizados que evitem os desperdícios de remédios.
Nada muito revolucionário, tudo muito urgente. Porque a novidade é que a higiene cresce como prioridade nas agendas de empresas e Governos. Singapura já está planejando regras de limpeza obrigatórias. Regras mais rígidas podem impulsionar as compras online de uma maneira semelhante à como a epidemia de síndrome respiratória aguda (SARS, na sigla em inglês) de 2003 fez com que as pessoas evitassem os centros comerciais.
Os Governos vão gastar mais para cuidar da saúde de sua população e evitar os enormes custos das pandemias. Só o SARS tirou ―de acordo com a Universidade Nacional da Austrália― 40 bilhões de dólares (204 bilhões de reais) da economia do planeta. “Para mim é uma chamada de atenção, já que a Covid-19 não é tão mortal como o ebola. As Administrações, pelo menos assim espero, se organizarão e estarão preparadas para a próxima”, diz Gael Combes, analista da gestora Unigestion. E continua. “Em um sentido mais econômico é pouco provável que mude nosso desejo de consumir e viajar. Talvez os grandes cruzeiros saiam de moda por um tempo, mas as pessoas não renunciarão, se puderem pagar, a um longo final de semana em Barcelona”.
Essa mesma fé na recuperação do consumo é demonstrada por Daniel Galván, diretor da GBS Finance. “Voltará com força à medida que a situação se normalizar”. Veremos. Porque o homem utiliza o “costume” como uma barreira contra a noite mais escura. O ser humano procura refúgios nas tempestades. “Estaremos mais atentos ao nosso, do público e do que nos protege, e crescerá a porcentagem das pessoas partidárias de aumentar (ainda que precisem pagar mais impostos) o gasto público em saúde”, diz Carlos Cruzado, presidente do Gestha, o sindicado dos técnicos da Fazenda da Espanha.

Enorme gasto público

Ninguém quer retornar a um novo período de austeridade como o que surgiu pela crise da dívida de 2011. Mas a trama dos dias de hoje é semelhante. Um enorme gasto público e a queda dos rendimentos tributários. “Se a crise acabar impactando de maneira assimétrica na Europa, menos no norte e mais no sul, porque os nortistas tiveram mais tempo para se preparar e cortar a cadeia internacional de fornecimentos sanitários dando prioridade a seu autoabastecimento, o calvinismo voltará a se impor: ‘Os pecadores merecem pagar por seus pecados”, critica Carlos Martín, responsável do gabinete econômico das CC OO (Comissões Operárias da Espanha). “Essa moral já se impôs durante a crise anterior: os sulistas gastaram em ‘mulheres e vinho’ [como disse em 2017 Jeroen Dijssel­bloem, à época ministro das Finanças holandês]. E o mais chocante é que alguns Governos do Sul compraram essa reprovação: ‘Vivemos acima de nossas possibilidades".
Agora podem raciocinar da mesma forma: os sulistas querem nos repassar, novamente, o custo de sua incapacidade e desorganização. Mas a economia após o coronavírus traz, em princípio, o requisito da solidariedade. É evidente que as medidas fiscais lançadas pelo Executivo para deter a pandemia deixarão um legado de maior déficit e dívida pública. “Esses aumentos devem ser financiados a longo prazo, até mesmo décadas. Com qualquer uma das soluções que serão por fim tomadas (emissão de dívida pública nacional, coronabônus europeus e outras), o BCE (Banco Central Europeu) terá um grande protagonismo no financiamento dos mercados secundários de dívida”, diz Rafael Doménech.
Por enquanto, a pandemia vive no presente. Acertar o futuro da economia soa complexo. Porque ninguém sabe qual será seu custo humano e econômico final. Ainda que sempre existam otimistas. “Acho que a maioria dos negócios, e evidentemente os gigantes norte-americanos e de outros países, não fracassarão no retorno a sua atividade empresarial [quando a crise passar]”, observa na agência Bloomberg Edmund Phelps, prêmio Nobel de Economia. Outras vozes dizem o mesmo. “Superaremos isso e estaremos melhor dentro de 24 meses”, calcula, em uma nota, Rob Lovelace, vice-presidente da gestora Capital Group. Mas dois anos é uma espera inimaginável em milhões de lares. Ainda que nesse período, talvez, algumas percepções deverão ter mudado para sempre. O preceito de “segurança nacional” incluirá a redistribuição da riqueza, uma fiscalidade mais justa e reforçar o Estado de bem-estar. A sociedade também deverá apreciar o valor de trabalhos até agora desprezados. Babás, assistentes sociais, faxineiras, cuidadores de idosos. Algumas das contribuições mais subvalorizadas pedem uma consideração bem diferente. Talvez o novo tempo proponha a lição de que os professores e as enfermeiras são muito mais valiosos do que os banqueiros de investimento e os gestores de fundos especulativos.
Uma dessas vozes cheias de dinheiro é a de Larry Fink. A pessoa mais poderosa dos mercados. Administra sete trilhões de dólares (35 trilhões de reais) pelo BlackRock, a maior gestora de fundos do planeta. Confinado em sua casa, escreveu uma carta de 11 páginas aos seus clientes, acionistas e funcionários. Defende ―claro― o brilho do capital. “Existem enormes oportunidades no mercado”, afirma. E imagina um futuro diferente. “Quando sairmos da crise, o mundo será diferente. A psicologia do investidor mudará. Os negócios mudarão. O consumo mudará”, talvez as pessoas evitem os lugares cheios como shows e restaurantes. “Então só sobreviverão as grandes redes e os pedidos online”, se pergunta Giles Alston, especialista da Oxford Analytica. Parece improvável. Mas as camisetas terão estampadas a palavra “resiliência” e em suas etiquetas deveríamos ler fabricado em “decência”, “generosidade”, “honestidade”, “beleza”, “coragem”.
Pouco a pouco, o futuro econômico se filtra da mesma forma que a luz por uma fresta. “As políticas monetárias perpetuam o tipo de dinheiro a partir do zero porque a inflação deixou de ser um problema”, prevê Roberto Scholtes, diretor de estratégia da UBS. A economia terá que responder a novas exigências sociais. Políticas fiscais mais expansivas, maior pressão por redistribuir a riqueza e será preciso projetar divisões de gastos extraordinárias diante de novas epidemias e a crise climática.
“As grandes crises econômicas da história desde a Segunda Guerra Mundial ocorreram com talento político questionável nas superpotências”, diz Emilio Ontiveros, presidente da Analistas Financeiros Internacionais (AFI). E vai além. “Chega uma quarta fase da globalização e precisamos de uma coordenação multilateral maior. O BID, o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), o G20 e o Eurogrupo precisam agir com maior ambição. Porque, do contrário, sumirão as economias das pessoas, as aposentadorias, o bem-estar. E a sociedade e a economia sairão mais empobrecidas após a crise”. É preciso uma renda básica e qualquer sistema de distribuição semelhante que dê proteção às pessoas em tempos de emergência e de calma. Principalmente após o inevitável aumento do desemprego que o fim do enclausuramento econômico deixará. A UBS estima uma destruição (temporária) de dois milhões de empregos na Espanha, e o Goldman Sachs acha que o PIB do mundo cairá 1% neste ano.
Nesse momento, a psicologia do investidor, presa no paradoxo, será ao mesmo tempo igual e diferente. “Como em outras situações que combinam incerteza e volatilidade elevada, existe um grande apetite pela liquidez e a possibilidade de que os poupadores optem por depósitos frente a outros investimentos”, diz Francisco Uría, sócio responsável do setor financeiro da KPMG. Mas a nova linha do horizonte será desenhada pelos fundos cotizados (ETF) e a sustentabilidade nas carteiras. E o que será do setor imobiliário, que também criou bolhas, contradizendo ao poeta, nada leves e sutis? Irá se voltar à tecnologia. As imobiliárias se tornarão digitais. Até onde for possível. Ninguém compra uma casa sem vê-la fisicamente. “Mas a curto prazo, o impacto é duro. As pessoas devem solucionar primeiro outros problemas imediatos, depois voltarão a comprar moradias”, prevê Carlos Smerdou, executivo-chefe da Foro Consultores Imobiliários.

Emergência climática

Porque nesse anoitecer da Terra, somente a emergência climática e a natureza parecem se beneficiar. O respiro que demos à atmosfera é a única luz branca que cai sobre uma obscura pandemia. Na China, onde a poluição causa mais de 1,6 milhão de mortes prematuras, o confinamento, de acordo com o cientista da Universidade de Stanford Marshall Burke, salvou a vida de pelo menos 1.400 crianças menores de 5 anos e 51.700 adultos de mais de 70 anos.
Mudamos nossa existência e nossa forma de trabalhar em um respiro. Não podemos em outro modificar a maneira como habitamos o planeta? “As escolhas que os bancos centrais, o Governos e as instituições financeiras fizerem hoje moldarão nossas sociedades nos próximos anos. É tempo de mobilizar recursos para colocar a saúde e o trabalhos das pessoas em primeiro lugar. Por isso, as Administrações devem investir em afastar nossas economias da dependência dos combustíveis fósseis e o crescimento infinito que continua alimentando o desastre”, pede May Boeve, diretora da ONG 350.org.

“Vamos a uma recessão não vista desde a Grande Depressão”

Kenneth Rogoff, economista e professor em Harvard, acha que o vigor da saída da crise depende da resposta sanitária.
Kenneth Rogoff, em foto de 2018.
Kenneth Rogoff, em foto de 2018.Jason Alden / Bloomberg
Rogoff, um dos grandes economistas do século XXI, tem o prestígio de não escrever linhas torcidas. Em 2009 publicou, com sua colega no centro norte-americano Carmen Reinhart um livro cujo título é uma reimpressão dos dias em que transitamos. This is Different: Eight Centuries of Financial Folly (Isso é diferente: Oito séculos de necessidade financeira). Hoje, enquanto conversa com o EL PAÍS através de um questionário enviado por e-mail, essa frase tem o mesmo peso de um céu de chumbo. “O impacto potencial na política econômica é profundo. Mas pode ir em diferentes direções”, afirma Rogoff. “O sistema autoritário da China será visto como a solução ou a causa da crise? O inepto manejo da pandemia pelos Estados Unidos, tanto em suas primeiras etapas (falta de testes) como em suas últimas (carência de uma política nacional unificada), assinalará o começo do fim do domínio norte-americano ou, em última instância, mostrará a criatividade e a resiliência do país e do dólar? Será preciso ter muita força.
Os meses chegam descontando um calendário de dias desolados. “Parece que nos dirigimos a uma profunda recessão global, com um tamanho nunca visto desde a Grande Depressão”, prevê o economista. “Esperemos que seja muito mais curta. Ainda que a rapidez da saída dependa de como o vírus se desenvolva e a resposta do sistema de saúde. Mas, até mesmo no melhor dos casos, a situação é terrível aos mercados emergentes. Antes da crise já tinham uma dívida externa altíssima [entre hoje e o final do próximo ano, os países em desenvolvimento devem lidar, de acordo com a ONU, com o pagamento de 2,7 trilhões de dólares (13 trilhões de reais) em dívida] e um crescimento em queda. Isso provocará o colapso de muitas nações. Carmen Reinhart e eu propomos uma moratória do pagamento aos países mais afetados”, diz Rogoff.

Depressão social e liberdade

A pandemia passará e será preciso pensar por quais ruas e cidade caminharemos. Porque a Terra corre o risco de cair em uma espécie de depressão social causada por esse tempo de distanciamento. “Um colapso pessoal que será muito duro com a população mais isolada e solitária, como os idosos”, alerta o colunista Ezra Klein. É o resultado de um confinamento imposto, mas também voluntário. Já existe uma cacofônica palavra que o define: co­cooning. “É a tendência a estar mais tempo em casa, socializar menos fora e fazer de teu lar uma fortaleza”, diz Patricia Daimiel, diretora-geral da consultoria Nielsen. É o que queremos? Nos sentir seguros e isolados? “Provavelmente descobriremos (outra vez!) que existem muitos trabalhos que podem ser feitos em casa, economizando combustível em deslocamentos e tempo de espera em antessalas. O problema, entretanto, é que queremos estender esse privilégio a atividades muito importantes como a educação e o amor, que não podem deixar de ser presenciais: exigem o corpo a corpo”, reflete o filósofo Fernando Savater. Sem dúvida, a imensa urgência do presente nos impede de avaliar qual horizonte o futuro deixará.
O escritor israelense Noah Harari contou no ‘The Financial Times’ que nestes tempos de crise a sociedade precisa escolher entre “vigilância totalitária e empoderamento cidadão”. As pessoas enfrentarão dilemas. “E no momento de escolher as respostas deveríamos avaliar as alternativas e as implicações a longo prazo. As novas tecnologias são uma excelente ferramenta para prevenir e evitar os contágios e organizar nossas vidas (pensemos na compra ‘online’) e a atividade econômica (teletrabalho). Mas é preciso encontrar um equilíbrio entre privacidade e segurança, e evitar cair em um controle que manipule as pessoas e coloque suas liberdades individuais em perigo”, alerta Rafael Doménech, responsável de análise econômica do BBVA Research.
A China lidou com a pandemia, entre outras medidas, monitorando milhões de telefones inteligentes para controlar os contatos e a temperatura corporal de seus donos. E no espaço de duas semanas, os primeiros-ministros de Israel e Hungria se outorgaram a possibilidade de governar por decreto, sem interferências do Parlamento e dos tribunais. Mas as emergências e os desastres também são uma fenda a uma nova normalidade. Através dela vemos a possibilidade de outros mundos e outra sociedade. Há perdas, há ganhos; o ar e a vida se filtram.
“Precisamos de uma nova economia dos cuidados que integre os sistemas nacionais de saúde públicos e privados como fizemos com os sistemas bancários”, diz Carlos Martín, responsável do gabinete econômico das CC OO (Comissões Operárias da Espanha). E aprofunda. “Minha proposta é um eurosistema de saúde que seria financiado com o primeiro imposto em escala europeia e comunitária. Uma taxação progressiva sobre o patrimônio das pessoas, cujos excedentes seriam utilizados em ir somando aos países com menos recursos de fora da UE, até cobrir todo o planeta...”.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

OMC: Pandemia poder provocar a recessão mais profunda da história

América do Norte e Ásia devem ser as regiões mais atingidas pela crise econômica


postado em 08/04/2020 
Trump deve enfrentar grande recessão nos EUA, segundo a OMC(foto: AFP / MANDEL NGAN)
Trump deve enfrentar grande recessão nos EUA, segundo a OMC (foto: AFP / MANDEL NGAN)
O comércio mundial se contrairá entre 13% e 32% em 2020, muito mais do que durante a crise financeira de 2008, devido ao impacto da pandemia de coronavírus - estimou a Organização Mundial do Comércio (OMC) nesta quarta-feira (8/4).

O desastre econômico causado pela Covid-19, que afeta praticamente todos os países do planeta e forçou mais da metade da Humanidade a permanecer confinada, poderá provocar "a recessão mais profunda da nossa existência", advertiu a organização com sede em Genebra.

Já abalado pelas tensões comerciais entre China e Estados Unidos, assim como pela incerteza em torno do Brexit, o comércio sofrerá uma queda de "dois dígitos" em "quase todas as regiões" do planeta, especialmente na América do Norte e na Ásia, de acordo com os economistas da iComércio.

América Latina e Europa também sofrerão quedas de mais de 30%. 

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"O objetivo imediato é controlar a pandemia e mitigar os danos econômicos causados a indivíduos, empresas e países", disse o diretor-geral da OMC, Roberto Azevêdo, citado no relatório, no qual convidou os formuladores de políticas a "começarem a planejar" o futuro pós-pandemia. 

A crise comercial "provavelmente será maior do que a contração do comércio causada pela crise financeira global de 2008-2009", frisou a OMC.

Embora ambos os episódios sejam "semelhantes em certos aspectos", particularmente em relação a uma intervenção em massa dos governos para apoiar empresas e famílias, a crise atual é mais ampla.

"Por causa das restrições, que afetam os deslocamentos e o distanciamento social, ambos impostos para impedir a propagação da doença, a oferta de trabalho, de transporte e de viagens é diretamente afetada", explica a OMC.

A falsa escolha entre salvar vidas e salvar a economia

Não é uma escolha entre vidas e economia

Mais cedo ou mais tarde, a crise econômica virá de qualquer forma, a questão é que quanto mais mortes, mais difícil será a recuperação

Uma das maiores tragédias de nossos tempos é a incessante polarização política de discussões técnicas. No caso do combate ao coronavirus, o adjetivo “trágico” é literal. O fato é que, desde o discurso de Bolsonaro em rede nacional na última terça-feira, o debate público se reduziu a um dilema estéril e abstrato: devemos salvar as vidas ou a economia?
Concretamente falando, o dilema não existe: a crise econômica virá. Ela pode vir algumas semanas antes, caso pratiquemos o confinamento preventivamente – o que reduzirá consumo e produção – ou algumas semanas depois, caso deixemos a doença se alastrar, as milhares de mortes diárias chegarem e o pânico tomar conta. A diferença é que, neste segundo caso, o número de mortes será muito maior e a recuperação muito mais lenta.
Para reduzir os danos econômicos do confinamento, o Estado tem que intervir de forma decisiva na economia, tendo três objetivos: garantir a subsistência de todo mundo que precise; preservar empregos na medida do possível, subsidiando a folha de pagamento de empresas que precisem suspender seus trabalhadores; prover capital de giro para as empresas. Essas medidas contribuem para que a recuperação econômica, ao fim da crise, seja rápida: as pessoas e os bens de capital estarão em seu lugar, os trabalhadores apenas voltam para seus postos. É muito mais fácil do que reorganizar uma terra arrasada do zero.
Desde o discurso do presidente, contudo, uma parte relevante da opinião pública tem defendido o fim de qualquer política de confinamento, aconselhando apenas que idosos fiquem em casa.
É preciso frisar, aqui, o quanto o debate brasileiro está distante do resto do mundo. Ao pedir que as pessoas fora do grupo de risco voltem às ruas e que as escolas voltem a ter aulas, Bolsonaro nos coloca em uma posição de permissividade mais extrema que a do Japão, o país que menos medidas restritivas tomou até agora (nesta semana, os novos casos em Tóquio subiram de forma preocupante; por isso a governadora regional já avisou que um lockdown pode estar a caminho). Mesmo lá, contudo, as escolas foram fechadas.
Nos EUA, Trump tem adotado uma posição similar à de Bolsonaro: protesta, em nome da economia, contra as medidas de isolamento social. No entanto, mesmo em seu discurso temerário o fim das restrições deve começar, gradualmente, apenas na Páscoa: ou seja, dia 12 de abril. A quarentena de SP, contra a qual Bolsonaro protesta veementemente, está programada para ir até o dia 07 de abril. Mesmo os exemplos mais permissivos do resto do mundo, portanto, são tratados como uma restrição intolerável pelo discurso de Bolsonaro e seus seguidores nas redes, que não se baseia em nenhum tipo de estudo ou modelo.
Por fim, cabe lembrar qual foi o país que adotou a mesma linha pregada agora por Bolsonaro: a de que a epidemia é um alarmismo midiático e que a economia não pode parar: a Itália. Em fins de fevereiro, a cidade de Milão adotou a campanha “Milano non si ferma” (“Milão não para”), iniciada em fins de fevereiro em Milão. Desde então, Milão se tornou o grande foco na doença na Itália, e hoje morrem diariamente mais de 700 pessoas no país. O prefeito de Milão já pediu desculpas públicas pela campanha. As desculpas, contudo, não trarão uma vida sequer de volta.
Ninguém deseja estender o isolamento social mais do que o necessário. Ao mesmo tempo, há evidências de que este seja o melhor jeito de reduzir a taxa de novos contágios. É o que os números vêm mostrando em SP: nos últimos dias os novos casos parecem estar desacelerando. O custo econômico, evidentemente, é alto. Felizmente, com a aprovação da renda básica de R$600 pelo Congresso (provavelmente precisaremos de medidas adicionais para chegar a todos) e a linha de crédito especial do Banco Central para financiar a folha de pagamento de pequenas e médias empresas, esse custo será amenizado.
A estratégia, a partir de agora, deve se focar nos gastos da Saúde: aumentar a capacidade do SUS para tratar novos casos (leitos e respiradores), compras massivas de testes para a população e investimento na produção de ítens de proteção individual, como máscaras. Com essa agenda avançada, e a curva um pouco achatada, será possível reduzir a restrição, liberando pessoas não-infectadas, identificando rapidamente novos focos e isolando todos os que tiverem contato, além do confinamento dos grupos de risco.
Sem essas providências, toda promessa de “isolamento parcial” não passa de engodo; é jogar a população num “salve-se quem puder”, aumentando drasticamente o contágio e, muito em breve, produzindo pânico social e uma crise econômica muito pior. Ou alguém acha que os consumidores irão felizes às compras se cenas de corpos empilhados diariamente às portas dos hospitais se tornarem normais?

terça-feira, 7 de abril de 2020

CHARGE

Como evitar contaminhação de coronavírus na ida ao mercado

Higienizar frutas e verduras é fundamental, mas não há indícios de que a doença seja transmitida por alimentos

Paula Felix, O Estado de S.Paulo
24 de março de 2020
SÃO PAULO - Com o novo coronavírus, a covid-19, a rotina antes, durante e depois da ida ao supermercado precisa ser alterada. Preparar uma lista para fazer as compras com agilidade, lavar bem as mãos ao chegar em casa e higienizar as embalagens com álcool 70% são algumas das orientações, tendo em vista a capacidade do vírus de se manter ativo em superfícies. Higienizar frutas e verduras é fundamental, mas não há indícios de que a doença seja transmitida por alimentos.
O Estado levantou dúvidas com base em questões enviadas por leitores do grupo EstadãoInforma: Coronavírus, espaço para discussão e troca de informações sobre a pandemia criado pelo jornal no Facebook.  As respostas têm como base entrevistas com Betania Paiva Drumond, professora e virologista da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e Leonardo Weissmann, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), e também reportagens do Estado. O grupo é um espaço para discussão e troca de informações sobre a pandemia na rede social. Qualquer usuário pode se inscrever e enviar suas dúvidas. 
Supermercados
Supermercados continuam abertos durante a quarentena Foto: Dida Sampaio/Estadão
É importante fazer uma lista de compras para evitar passar muito tempo andando pelo mercado?
Sim. Quanto menos tempo permanecer fora de casa e ainda em um ambiente fechado, melhor. Ao fazer uma lista, a pessoa já vai direcionada e fica menos tempo no supermercado ou andando em setores em que não precisa ficar, evitando em contato com pessoas ou superfícies contaminadas.
 
Quais os cuidados ao usar carrinho e cestas de compras? É adequado levar um carrinho ou sacola de casa?
Ao tocar carrinho, cesta de compras ou qualquer superfície, é necessária a higienização das mãos. Passar álcool em gel no apoio do carrinho é outra opção. Ou levar uma sacola ou carrinho que só você e as pessoas da sua casa manipulem. Além disso, deve-se ter o máximo de atenção para não tocar olhos, nariz e boca. 
 
É preciso tomar algum cuidado após manusear os alimentos dentro do mercado? A pessoa deve passar álcool em gel enquanto estiver no supermercado ou basta evitar tocar no rosto?
Enquanto estiver fazendo compras, a pessoa pode encostar em alimentos ou outros produtos que foram tocados por outras pessoas e eles podem estar contaminados. O ideal é não tocar o rosto em momento algum até chegar em casa e lavar muito bem as mãos. Se possível, de tempos em tempos, fazer a limpeza das mãos. 
 
Como deve ser a interação com os funcionários? É necessário manter distância?
Deve-se manter uma distância segura de mais de 1 metro em relação a outras pessoas. Não precisa tomar medidas radicais: pode perguntar, dar bom dia, mas o ideal é tentar manter distância de uma pessoa para a outra e evitar ficar falando próximo das outras pessoas. Na fila, a própria distância feita pelo carrinho já fica próximo do que é recomendado pelas autoridades.
Quais as orientações para feiras livres?
As recomendações são basicamente as mesmas para quem frequenta supermercados. Os frequentadores devem evitar aglomerações.
 
Quais são os cuidados que devem ser tomados ao chegar em casa? Basta lavar as mãos ou é preciso tomar banho e trocar de roupa?
Em tempos de coronavírus, assim que se chega em casa se deve tirar a roupa e os sapatos e lavar as mãos com água e sabão por pelo menos 40 segundos. O rosto deve ser lavado também. Os sapatos devem ser colocados na entrada da casa ou em um local que reúna apenas os calçados.
 
Quais as medidas de higiene que devem ser adotadas com frutas e verduras?
Deve-se lavá-las com água corrente e colocá-las em um recipiente com água e água sanitária – para cada um litro de água uma colher de sopa de água sanitária. Deixar as frutas e verduras nessa solução por cerca de 10 ou 15 minutos no máximo e, em seguida, lavar bem em água corrente e deixar secar naturalmente.
 
Como deve ser feita a higienização de embalagens tetra pak? E as de plástico?
Podem ser limpas e desinfetadas com álcool 70%. 
 
Corro risco de pegar coronavírus com alimentos?
Não há indícios de que há transmissão. Uma análise da Autoridade Europeia de Segurança dos Alimentos (European Food Safety Authority - EFSA) sobre o risco em outras epidemias causadas por vírus parecidos com o SARS-Cov-2, causador do novo coronavírus, não constatou nenhuma transmissão por alimento.

LIVROS para crianças sobre monstros e a chave para a convivência com o que nos assusta

De Maurice Sendak a Olga de Dios, veja livros infantis que retratam os mais variados monstrinhos

Maria Fernanda Rodrigues, Impresso
07 de abril de 2020 
Monstros sempre fizeram parte do imaginário infantil e povoaram inúmeros livros (e quartos). Em 2011, o Estadinho reuniu seus pequenos leitores para um encontro na Livraria Cultura em torno do livro Onde Vivem os Monstros, clássico de Maurice Sendak publicado pela Cosac Naify que ganhou uma bela adaptação para o cinema e, com o encerramento da editora, virou uma raridade em sebos.
No Circuito Estadinho daquele 12 de março, as crianças conheceram a história de Max, um garoto que ficou de castigo em seu quarto e passou a ver os objetos do ambiente, e o próprio ambiente, com novos olhos, mergulhando num mundo de fantasias nesta grande e complexa metáfora sobre o inconsciente. Com base na história, os participantes fizeram uma série de atividades.
Monstro Rosa
'Mostro Rosa' foi publicado pelo selo Boitatá Foto: Olga de Dios
Dois anos depois, o Estadinho indicava outro livro nesta mesma linha: Carlota e os Monstros (Estação Liberdade, 34 págs.; R$ 37), de Doris Dörrie e Julia Kaergel. A história acompanha a menina que não consegue dormir porque há sete monstros em seu quarto. Cada um fazendo uma coisa diferente. A mãe não acredita, e Carlota tenta descobrir o que eles querem de verdade.
Hoje, há novas opções de livros infantis nas livrarias – e outros monstros estão divertindo as crianças e as ajudando a lidar e a conviver com eles.
Um guarda-roupa em um quarto escuro: o terror de toda criança. A porta está fechada? O que tem lá atrás? Um monstro? Se Eu Abrir Esta Porta Agora (Sesi-SP Editora; 56 págs.; R$ 44), de Alexandre Rampazo, vai se desdobrando nas mãos dos leitores para levá-lo a esta descoberta.
Onde Vivem os Monstros
'Onde Vivem os Monstros', clássico de Maurice Sendak Foto: Maurice Sendak
Da espanhola Olga de Dios, o Boitatá, selo da Boitempo, publicou Monstro Rosa, um simpático ser que se sente estranho. Ele, que é graúdo, peludo e rosa, vem de um lugar onde tudo e todos são brancos. Cansado, ele parte em busca de um lugar onde possa ser quem ele é.
Estadinho
Estadinho de 12 de março de 2011 Foto: Acervo Estadão
Para crianças maiores, a dica é Monstros do Cinema (Sesi-SP Editora; 52 págs.; R$ 48), de Augusto Massi e Daniel Kondo. O livro cataloga e retrata 11 monstros que já assustaram diversas gerações de cinéfilos e pequenos cinéfilos, faz um levantamento histórico desses personagens, indica os filmes em que apareceram pela primeira vez e apresenta um panorama evolutivo de suas representações. Vale como programa duplo para a família durante a quarentena para evitar o coronavírus: conhecer a história dos mais famosos monstros e seguir sua trilha pelo serviço de streaming.
E um livro obrigatório para pais, embora seja dedicado às crianças: Agora não, Bernardo (WMF Martins Fontes; 32 págs.; R$ 44,90), de David Mckee. O menino queria avisar os pais que havia um monstro dentro da casa deles, mas, sem encontrar interlocução, acaba devorado por ele.

Pacientes curados do coronavírus relatam tensão e dor: 'Achei que fosse morrer'

Maior parte das pessoas diagnosticadas com a covid-19 apresenta sintomas leves, mas há casos com necessidade de internação na UTI

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo
07 de abril de 2020
De uma forma ou de outra, todo mundo vai ter contato com o esse inimigo invisível e oculto, o novo coronavírus. Ele se espalhou pelos quatro cantos do planeta e provocou uma pandemia. Para muita gente, ele poderá passar rápido, provocando sintomas leves, situação que pode ser resolvida com tratamento caseiro. Mas, para cerca de 20% da população, a doença é motivo de internação hospitalar e até de uso de respiradores, hoje o equipamento mais escasso e que pode ser o fiel da balança da sobrevivência.
O Estado conversou com pessoas que foram diagnosticadas com o novo vírus e estão curadas ou em fase final do tratamento para a covid-19. Entre os entrevistados estão aqueles que ficaram na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), como o jurista Ives Gandra Martins, de 85 anos, que, pela idade, pertence ao grupo de risco da covid-19. 
Orlando Morando
Orlando Morando (PSDB) é prefeito de São Bernardo do Campo Foto: REUTERS/Amanda Perobelli
Também fazem parte do grupo de risco para o novo coronavírus pessoas com comorbidades, como complicações cardíacas, doenças pulmonares e renais. O vírus, no entanto, atinge a todos: pegou em cheio o prefeito de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, Orlando Morando (PSDB), de 45 anos, com a saúde em dia. “Senti uma falta de ar asfixiante”, disse Morando ao Estado. 
No grupo dos que fizeram tratamento em casa e não precisaram de internação estão a jornalista Monique Arruda, de 34 anos, e a técnica de enfermagem, Natália Leite, de 35 anos. Também se recuperou em casa o médico infectologista David Uip, que lidera o comitê de combate à doença em São Paulo. Uip participou na segunda-feira de uma entrevista coletiva no Palácio dos Bandeirantes sobre o avanço da covid-19 no Estado, após ficar vários dias afastado, em isolamento domiciliar, durante o tratamento para a doença.
Seja em casa ou no leito de uma UTI, o medo de morrer foi o traço comum dos depoimentos desses brasileiros que agora – ao que tudo indica – já estão imunizados contra o novo coronavírus. Para eles, a lição que ficou é de que a vida é muito frágil e a saída para superar esse momento é ouvir a ciência e ser solidário. Veja abaixo os depoimentos:

"Senti uma falta de ar asfixiante"

Depois de uma semana na UTI, Orlando Morando, prefeito de São Bernardo do Campo (PSDB), no ABC paulista, disse que achou que morreria por causa da covid-19. O pior momento foi na semana passada. “Senti uma falta de ar asfixiante, foi a pior sensação que tive na vida.”
A situação só começou a reverter quando os médicos começaram a dar cloroquina. “O oxigênio não surtia efeito”, lembra o político de 45 anos, que tem boa saúde e não faz parte de grupo de risco.
A lição que fica, segundo ele, é que é preciso valorizar a vida. “Esse é o maior bem que a gente tem. Quando se está à beira do precipício não adianta mais.”
Outra lição tirada dessa experiência é a necessidade de as pessoas serem mais humanas. Morando disse que tem acompanhado as discussões recentes e que, na sua opinião, elas são totalmente “ilógicas”. “O que adianta discutir a economia para quem não tem mais saúde?”.
“A ciência está mostrando que o isolamento é a chance que temos para proteger as pessoas”, frisou. Depois do que ele passou, Morando disse que gostaria de ver se alguém consegue ficar alguns segundos sem respirar tentando contar dinheiro,

"Dói os pulmões, achei que eu fosse morrer"

No dia 25 de março, a técnica de enfermagem Natália Leite, de 35 anos, começou a ter sintomas de uma gripe normal: tosse, espirros e nariz escorrendo. Foi a uma UPA e o médico a diagnosticou com gripe, H1N1. Natália, que trabalha em um hospital público, foi afastada do serviço e começou o tratamento em casa.
Natália Leite está recuperada do coronavírus
Natália Leite está recuperada do coronavírus Foto: Arquivo pessoal
Com o passar dos dias, o quadro piorou: veio a febre alta, que chegava 40 graus, perda de paladar, olfato e dor nos pulmões, como se tivessem sendo esmagados. Ela voltou ao médico, fez o teste e confirmou que estava com covid-19. “O sintoma é de uma gripona: quando tosse, dói os pulmões, achei que fosse morrer”, contou.
No começo, ela não acreditou que estivesse com a doença, pois tomava todos os cuidados de higiene e no hospital onde trabalha cuida de uma ala isolada, onde estão pacientes sem relação com a pandemia.
Depois do diagnóstico, o médico recomendou que continuasse o tratamento em casa e só fosse ao hospital se tivesse falta de ar. Natália mandou o filho menor, de 4 anos, para a casa do pai, e ficou na companhia do filho maior, de 14. “No dia 9 vou refazer o teste para ver se o vírus foi embora.”

"Minha guerra não começou com o coronavírus"

No dia 27 de fevereiro, o jurista Ives Gandra Martins foi submetido a uma cirurgia simples de esôfago. Na recuperação teve uma isquemia, depois uma septicemia. Ficou quatro dias em coma na UTI e, quando estava se recuperando pegou o novo coronavírus. “A minha guerra não começou com o coronavírus”, disse o jurista, que agora já está em casa, mas ainda em recuperação. “Sinto fraqueza e falta de apetite. Mas, fora isso, estou bem. Estou escrevendo: coronavírus não atingiu o cérebro”, brincou.
Ives Gandra tem 85 anos
Ives Gandra tem 85 anos Foto: Denise Andrade/ESTADÃO
Após 38 dias de hospital, ele mantém o raciocínio perspicaz. “Os médicos foram muito bons, mas acredito mais no médico lá de cima”, disse o jurista, que é católico, acredita em Deus e no poder das orações.
Aos 85 anos e, portanto, pertencendo ao grupo de risco, Gandra relatou que nunca tinha vivido um drama pessoal tão grande. Apesar da fase difícil, ele se considera otimista. Acredita que, do ponto de vista coletivo, a pandemia do novo coronavírus vai ser um momento de reflexão da humanidade. “Essa é uma guerra mundial contra um inimigo invisível e, com solidariedade, será uma grande oportunidade para mudarmos a face da terra.”

"Fiquei sem olfato por 12 dias"

Há 17 dias trancada em casa, Monique Arruda, de 34 anos, jornalista, não precisou ir para o hospital para se curar da covid-19. No primeiro dia, ela contou que teve muita dor de cabeça, cansaço e febre alta. “Fiquei sem olfato durante 12 dias, era como se não tivesse nariz”, lembrou. Ela recebeu orientação do médico via aplicativos, o laboratório fez o teste em casa e o resultado foi positivo. Já o seu filho de 3 anos teve muita falta de ar, mas o teste deu negativo. Até mesmo no período de isolamento, o médico a autorizou a amamentar para atenuar os sintomas da criança. Ela usou máscara e tomou cuidado com a higienização das mãos. 
Monique Arruda não precisou ir para o hospital
Monique Arruda não precisou ir para o hospital Foto: Arquivo pessoal
Outra preocupação de Monique é com a mãe idosa, de 70 anos, que mora na mesma casa. Mas, segundo ela, a mãe não pegou a doença, apesar de ser fumante e fazer parte do grupo de risco. “Apesar de os meus sintomas terem sido leves, foi um pesadelo”, resumiu a jornalista. Ser portadora do vírus soou como uma sentença de morte para ela. No seu caso, um dos pontos que ajudaram, na sua opinião, a não virar um caso grave foi seu estilo de vida saudável. “Alimentação é a base de tudo.”

"Se as pessoas tivessem noção, não sairiam de casa de jeito nenhum"

Depois de 19 dias internado, dos quais 11 na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Samaritano, em São Paulo, o relações públicas Ireno Marcio Silva, de 41 anos, está vendo a sua vida voltar ao normal. Ele saiu do hospital na última sexta-feira (03/04), 12 quilos mais magro e com uma história de desespero e aflição para contar.
coronavirus
Silva não fazia parte do grupo de risco Foto: Ireno Marcio Silva/ Arquivo Pessoal
“Se as pessoas tivessem a noção do que é essa doença, não sairiam de casa de jeito nenhum”, alertou Silva. Ele começou a sentir os primeiro sintomas no dia 5 de março: perda de olfato e de paladar. “Achei estranho”, relatou. Depois veio uma leve dor nas costas, que ela achava que era por conta do ritmo intenso de trabalho. No terceiro dia, veio uma febre moderada, intercalada de ondas de frio, lembrando uma gripe, mas no fundo muito diferente.
Uma semana depois, ele procurou o médico no Hospital Nove de Julho, que o diagnosticou com uma pneumonia viral e prescreveu uma medicação para gripe H1N1. Após três dias tomando o remédio em casa e com os sintomas persistindo, decidiu ir ao outro hospital e foi internado imediatamente. Fez o teste para coronavírus, que deu positivo. Com muita falta de ar, três dias depois de internado foi parar na  UTI.
Aí começou o sofrimento maior: ser entubado, amarrado, todas aquelas coisas de UTI, que são horríveis, relatou o relações públicas. “Cheguei a pedir para os enfermeiros e médicos que não fizessem mais nada, que me deixassem morrer.”
Silva não fazia parte do grupo de risco, não tinha doenças pré-existentes, fazia ginástica regularmente. Ele lembra que a doença pode vir de forma leve, mediano. “Mas também pode vir como veio para mim. Só não fui porque Deus teve misericórdia e a hospital era de primeira.”