quinta-feira, 26 de outubro de 2017

A força de trabalho por trás da inteligência artificial

Apesar de causarem preocupação quanto a perda de empregos, avanços na IA requerem um exército de trabalhadores para treinar as máquinas. Colaboradores dedicam de 5 minutos a 40 horas semanais ao serviço.
Robô Inteligência artificial precisa ser aprendida por robôs
A inteligência artificial (IA) precisa ser ensinada. Para treinar um carro a conduzir sozinho e em segurança, por exemplo, ele deve aprender a reconhecer pedestres e sinais de trânsito. Por trás disso, estão centenas de milhares de trabalhadores.
Empresas enviam milhares ou mesmo milhões de fotos para suas plataformas customizadas, e funcionários avaliam e processam cada foto, criando uma plataforma de dados, que finalmente habilitarão o carro a dirigir.
Leia também: A inteligência artificial vai mudar o futuro da música?
As companhias que treinam inteligência artificial perceberam que esse tipo de dados poderia ser processado por qualquer pessoa com acesso constante à internet. Empresas como Clickworker, Neurala e Alegion Inc. utilizam colaboradores online para impulsionar a criação da IA.
Com mais de um milhão dos chamados clickworkers inscritos, neste momento, provavelmente, por volta de cem mil pessoas estão logadas, examinando informações e dando um toque humano ao treinamento robótico. Os colaboradores podem passar de 5 minutos a 40 horas por semana realizando tarefas simples em seus computadores ou smartphones, tornando a IA mais inteligente e eficiente.
As categorias que precisam de mais colaboradores incluem a definição de imagem para a condução autônoma, a transcrição da língua e fala, e a categorização de mídia. Para algumas tarefas, o pagamento pode ser inferior a um dólar, e para trabalhos mais complicados, como identificar raios-x, pode-se ganhar até mil dólares por foto.


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Mercado de sistemas inteligentes já domina diversas áreas

Um estudo recente da consultoria PricewaterhouseCoopers estima que a IA possa contribuir com até 15,7 trilhões de dólares (50,8 trilhões de reais) para a economia global até 2030. Estima-se que 6 trilhões de dólares provenham do aumento da produção e da automação, e outros 9 trilhões de dólares, de "efeitos colaterais no consumo", como mudanças nós hábitos de compra como resultado de melhoras tecnológicas.
Investidores vêm apostando em startups baseadas em IA há anos, e a lista de grandes clientes continua crescendo, com companhias como Facebook, Amazon, Apple, Microsoft e Google buscando maneiras de simplificar os negócios por meio de novas tecnologias. Empresas como a Clickwork oferecem métodos de controle de qualidade e interfaces usadas para catalogar os dados.
Fator humano
Enquanto a demanda por clickworkers pode diminuir com o tempo, provavelmente não haverá um momento em que pessoas não estejam trabalhando em conjunto com a IA ou ao menos fazendo a sua manutenção.
Ainda há desentendimentos dentro da indústria sobre o quão robusta será a economia de empregos que apoiará a IA. Massimiliano Versace, CEO da Neurala, acredita que haverá uma diminuição do crowdsourcing, ou seja, o recrutamento de colaboradores.
"A necessidade de humanos para ensinar IA irá diminuir muito ao longo do tempo, já que as empresas descobrem maneiras de reduzir a carga de trabalho de taggers humanos [colaboradores], fazendo com que os dados sejam alimentados pela IA."
Já Vito Vishnepolsky, diretor de desenvolvimento de negócios da Clickworker, acha o contrário, afirmando que IA está tomando empregos de empresas de segurança e criando outros em firmas de software de alta tecnologia e inteligência artificial.
"Este mundo está em constante evolução e sempre serão necessários engenheiros para manter os sistemas atualizados e sempre será preciso recrutar trabalhadores para criar os conjuntos de dados para treinar os sistemas", diz ele.

Má gestão econômica também sabota a democracia

Brasilianista Peter Hakim ressalta importância de melhorar o sistema econômico para evitar que nomes antidemocráticos tenham ainda mais elementos para explorar a insatisfação popular antes das eleições.
A salvação do presidente Michel Temer pela Câmara e a corrupção generalizada do seu governo provocaram danos graves à democracia brasileira. Mas a má gestão da economia nos últimos anos também fez com que a população perdesse fé no sistema democrático.
Essa é a opinião do brasilianista americano Peter Hakim, presidente emérito do Instituto de Análise Política Inter-American Dialogue, com sede em Washington.
Segundo ele, é preciso que Temer use o restante do seu mandato para pelo menos melhorar o sistema econômico e assim evitar que forças mais antidemocráticas, como o pré-candidato Jair Bolsonaro, tenham ainda mais elementos para explorar a insatisfação popular.
"Muitos brasileiros afirmam que é impossível que Jair Bolsonaro consiga vencer. Mas, como cidadão americano, eu também ouvi que era impossível que Donald Trump chegar longe”, diz.
A denúncia contra o presidente Temer reunia acusações ainda mais graves do que a primeira, que já havia sido rejeitada em agosto. Mas isso não parece ter feito diferença na Câmara. Qual é o efeito disso para a democracia brasileira?  
Esse tipo de voto ocorre em uma arena política. O Congresso não deve ser considerado como um órgão judicial. Ele leva em conta as condições políticas do presente. Então a decisão não vai ser baseada nas questões legais e até morais que um tribunal comum consideraria. É pura política.
USA Peter Hakim (Inter-American Dialogue) O cientista político Peter Hakim
Mas isso afeta o bom funcionamento da democracia? Veja, só sobraram duas narrativas no Brasil. Uma é de que o Judiciário é um dos poderes que está funcionando de maneira eficiente e está expondo a corrupção, dando esperança de que o Brasil possa conservar sua democracia. A segunda narrativa também aponta que é verdade que a corrupção é ruim para a democracia, mas, por outro lado, a prolongada estagnação econômica também não é boa.
Nesta última visão, Temer é o único com a capacidade política para realizar as reformas necessárias para reavivar a economia. Ele tem até tido algum sucesso nessa área, considerando as circunstâncias e sua falta de popularidade. Então existem aqueles que argumentam "nós queremos nos livrar da corrupção, mas a volta do crescimento econômico também é muito importante, talvez mais até mais importante do que processar cada corrupto”.
Acho que é possível combater a corrupção e favorecer o crescimento econômico, mas as pessoas no Brasil só estão escolhendo um  lado ou outro. No final, a visão econômica acabou influenciando muitos votos a favor de Temer.
Alguns deputados, de fato, justificaram seus votos afirmando que trocar o presidente mais uma vez em pouco mais de um ano seria um fator de desestabilização. Mas esse não é um pragmatismo cínico?
Esse argumento faz sentido quando não há uma pessoa ou um grupo se apresentando como possíveis substitutos, e, além disso, como substitutos mais honestos do que Temer.  A alternativa óbvia seria o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, mas ele também está sendo investigado pela Justiça.
Nesta visão, esse argumento pragmático tem algum sentido. Mas é claro que, por outro lado, isso também causa danos ao Estado de Direito e à noção democrática de que todos são iguais perante a lei.
A democracia brasileira foi, sem dúvida, terrivelmente ferida por mais esse episódio e pela corrupção, mas ela também já havia sido ferida por uma desastrada política econômica.
Temer conseguiu menos votos na votação dessa segunda denúncia do que em relação à primeira, em agosto. Isso mostra que o presidente vai ter ainda mais dificuldade em aprovar o pacote de reformas, em especial a da Previdência?
Essa é uma visão bem difundida no Brasil, até porque a série de concessões que ele fez para assegurar a vitória o enfraqueceu ainda mais. Além disso, as reformas que ele promove não são lá muito populares. Ele, sem dúvida, não está em uma boa posição, mas ele também já recebeu bastante crédito de vários analistas pelo que já conseguiu fazer, considerando as circunstâncias.
As eleições de 2018 já começam a dominar as atenções. Mas, se a economia melhorar, o que é bem possível nos próximos meses, ele vai receber algum crédito por isso, mesmo que não consiga passar suas reformas. Lembre que os presidentes são elogiados por seu desempenho até quando o preço das commodities sobe.
Em 1989, o naufrágio econômico e moral do governo Sarney abriu o espaço para Fernando Collor. O último ano de Temer à frente do governo pode abrir caminho para novos aventureiros em 2018?
Com certeza. E o risco atual é muito mais grave do que aquele representado por Collor em 1989. Ainda é um mistério determinar quais vão ser os dois candidatos a emergir do primeiro turno. Muitos brasileiros afirmam que é impossível que Jair Bolsonaro consiga passar e depois vencer. Mas, como cidadão americano, eu também ouvi que era impossível que Donald Trump chegar longe.
Apoiadores de Hillary Clinton diziam "impossível, os eleitores nunca vão votar em um candidato assim”. As pesquisas hoje mostram que Bolsonaro está em segundo lugar. Comparado com Collor, Bolsonaro é um homem extremamente perigoso para a sociedade, especialmente em um momento em que as pessoas estão questionando a democracia e os partidos estão se esfarelando.
Colocado desta forma, já que o governo Temer não deve fazer nada para impedir a corrupção, ele precisa pelo menos acertar a economia para recuperar alguma confiança no sistema e ajudar a evitar que figuras como Bolsonaro, que já se aproveitam do discurso anticorrupção, a chegar mais longe?
Exatamente. Isso é colocar em forma de pergunta o que estou dizendo. Má gestão econômica também sabota a democracia. Basta ver o que aconteceu na Argentina.  Os brasileiros já se referem a alguns de seus políticos pela definição "rouba, mas faz”. É uma questão ética difícil.
Não esqueça que o PT, a principal força de oposição, vai lançar Lula, que já foi condenado por corrupção. A maior parte do PT votou contra Temer, mas também não oferece uma alternativa ética a tudo que está acontecendo.
O Brasil está em uma situação terrível. Acredito que é possível combater a corrupção e incentivar a economia, mas o quadro de opções no Brasil está bastante limitado.

Em 2100, metade das crianças do mundo viverá na África

Unicef alerta para "desastre social e econômico" e pede investimentos urgentes em educação e saúde no continente. Alta taxa de fecundidade e diminuição da mortalidade infantil contribuem para crescimento demográfico.
Crianças diante de casa de barro no Níger População infantil em toda a região deverá aumentar em 170 milhões nos próximos 13 anos
As Nações Unidas alertaram nesta quinta-feira (26/10) para a possibilidade de um "desastre social e econômico" na África nos próximos anos devido ao forte crescimento demográfico no continente. Um estudo divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) afirma que até 2100 metade das crianças e jovens do mundo viverá na África.
Somente nos próximos 13 anos, a população com menos de 18 anos em toda a região deverá aumentar em 170 milhões, para 750 milhões, aponta o estudo, intitulado Geração 2030 África 2.0. Em 2050, a população infantil africana já deverá corresponder a 40% da mundial – cem anos antes, em 1950, eram apenas 10%.
Leia também: Casamento infantil ilegal atinge 20 mil meninas por dia
O Unicef aponta que continente precisará de um adicional de 4,2 milhões de profissionais da área da saúde e 4,5 milhões de professores do ensino fundamental até 2030 para evitar que milhões de pessoas sejam forçadas a migrar em busca de condições melhores de vida.
"Estamos na conjuntura mais critica para as crianças na África", alertou Leila Pakkala, diretora regional do Unicef para o leste e o sul da África. "Se agirmos corretamente poderemos livrar milhões de pessoas da pobreza extrema e contribuir para o aumento da prosperidade, estabilidade e da paz."
O Unicef atribui a explosão demográfica no continente nos próximos anos a uma alta taxa de fecundidade, a um aumento do número de mulheres em idade reprodutiva e à diminuição da mortalidade infantil.
Se essas crianças tiverem acesso a educação e saúde até atingirem a idade de começar a trabalhar, poderão proporcionar um grande impulso ao crescimento econômico do continente. Mas, segundo Pakkala, para que isso seja possível, é necessário investir urgentemente nesses dois setores.
Professores e profissionais da saúde devem ser treinados e encorajados a permanecer em suas comunidades de origem, ao invés de sair em busca de melhores perspectivas nos grandes centros urbanos ou em outros países.
Educação e saúde como prioridade
Há, porém, um longo caminho a ser percorrido. Atualmente, mais de uma em cada cinco crianças africanas de idade entre seis e 11 anos não frequentam a escola. Particularmente as meninas têm a maior probabilidade de serem afastadas dos estudos em razão do casamento infantil e da gravidez precoce.
Hoje, seis em cada dez africanos não possuem acesso ao saneamento básico. Em média, há 1,7 médico para cada mil pessoas, número bem abaixo do padrão mínimo internacional estabelecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS), de 4,5.
"Até 2030, investir em atenção sanitária e na proteção à educação das crianças deve se converter em prioridade absoluta para a África", afirma Pakkala.
De acordo com estimativas da ONU, a população total da África, que hoje é de 1,2 bilhão, duplicará até 2050, chegando a 2,5 bilhões de pessoas.
RC/rtr/dpa

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Cientistas anunciam melhorias em técnica de edição genética

Descoberta revolucionária será útil no tratamento de doenças

25 out 2017 

Considerada um dos maiores avanços da ciência nos últimos anos, a técnica de edição genética conhecida pela sigla CRISPR garantiu uma forma simples, eficiente e barata de manipular o DNA. Nesta quarta-feira (25), a revista "Science" publicou um estudo no qual cientistas anunciaram o desenvolvimento de novas versões que permitem alterar uma única "letra" do DNA.
De acordo com o estudo liderado por David Liu, da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, a Crispr já permite que cientistas "recortem" e "editem" o genoma com precisão, mas agora, a principal diferença é que ela permitirá a edição de RNA, que pode alterar produtos de genes. Essa mudança tem potencial para ser usada tanto na pesquisa quanto no tratamento de doenças.
O DNA tem todas as informações sobre o corpo humano e isto é chamado de "livro da vida", que é "escrito" usando praticamente só quatro "letras": as moléculas citosina (C), adenina (A), guanina (G) e timina (T), também conhecidas como nucleotídeos.
O RNA funciona como um intermediário entre o DNA e a produção de proteínas. Ele "transcreve" as informações contidas no DNA e permite a síntese de proteína.
A nova técnica foi batizada de "REPAIR" (sigla em inglês para "Edição de RNA Programável para Substituição de A a I"). A estratégia permite a substituição de adenosina por iosina, por exemplo. Segundo o estudo, os pesquisadores conseguiram editar bases específicas do RNA com eficiência de até 51% em alguns casos.
Para os cientistas, essas estruturas estão envolvidas em mutações que estão associadas a mutações humanas. A troca no material genético de G para A, por exemplo, é comum e está associada a casos de epilepsia e Parkinson.
"Essa edição do RNA abre muitas oportunidades para recuperar funções e tratar muitas doenças em quase todos os tipos de célula", diz a pesquisa.

"Impacto da violência na economia global supera o da crise de 2008"

O mundo economizaria trilhões de dólares se parasse de investir em guerra. "Poderíamos alcançar avanços surpreendentes no contexto da mobilização para a paz", afirma pesquisadora em entrevista à DW.
Soldados iraquianos lutam contra o Estado Islâmico Soldados iraquianos lutam contra o "Estado Islâmico"
A violência tem um grande impacto na economia global, aponta Talia Hagerty, pesquisadora do Instituto de Economia e Paz (IEP), com sede em Sydney, na Austrália.
"Vamos comparar a fabricação de computadores com a produção de armas e perguntar o que faz mais sentido economicamente", diz ela em entrevista à DW.
Apesar de reconhecer que os avanços tecnológicos resultantes da Segunda Guerra Mundial ou da Guerra Fria, por exemplo, Hagerty aponta que o que se observa é que "organizar seres humanos em torno de um objetivo comum pode alcançar coisas incríveis".
DW: Quanto custam a guerra e a violência armada por ano?
Talia Hagerty: Quantificamos o impacto econômico da violência na economia global. O que constatamos foi que, em 2016, os custos diretos e indiretos da violência totalizaram por volta de 14,3 trilhões de dólares (46,3 trilhões de reais) em paridade de poder de compra (PPC), incluindo efeitos multiplicadores. Esse número inclui não apenas os custos de guerras, mas também de outras formas de violência, como terrorismo, homicídios e crimes violentos.
Talia Hagerty vom IEP (IEP) Talia Hagerty pesquisa no Instituto de Economia e Paz (IEP), em Sidney
Como se calculam os custos da guerra?
Quando um soldado é ferido na guerra, há custos diretos, como seus cuidados médicos, e custos indiretos, como perda salarial se ela ou ele ficar inválido. Mas isso não é tudo. Suponhamos que o tratamento de um soldado ferido custe 100 mil dólares, além dos cinco anos de salários perdidos por incapacidade de trabalhar, totalizando 250 mil dólares. Esse não é o custo total, porque esse dinheiro poderia ter sido gasto em algo produtivo, que agrega valor.
Quando se fabrica uma bomba, no melhor dos casos, ela nunca é usada. No pior cenário, ela é lançada e destrói valor em forma de vidas humanas ou capital físico, ou provavelmente os dois. Então, vamos comparar a fabricação de computadores com a produção de armas e perguntar o que faz mais sentido economicamente.
Mas a guerra e a ameaça de guerra não são positivas para a economia de países como EUA, Rússia, Reino Unido, França ou outros que têm grande poderio militar e exportam muitas armas?
Se é bom para esses países? Não. Pode ser rentável para certo número de empresas? Certamente. Mas isso não é tudo. As economias nacionais mencionadas prosperam num contexto de comércio globalizado. O impacto econômico da violência na economia global supera em muito aquele provocado pela crise financeira de 2008, por exemplo.
Então, se quisermos ter nações prósperas num mundo globalizado, isso significa que temos que olhar para o panorama completo – não apenas mensurar a prosperidade de nações ou setores individualmente, como empresas de fabricação de armas.
Mas não é verdade que despesas militares também geram uma grande e valiosa inovação tecnológica? Por exemplo, os transistores e a internet são ambos resultados do financiamento da Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa dos EUA (Darpa). E os alemães fizeram progressos surpreendentes em tudo, desde turbinas a foguetes, durante os seus seis anos de fúria, de 1939 a 1945. A urgência da guerra ou a competição bélica parece estimular a alta criatividade e o desempenho em termos tecnológicos e, portanto, também em termos econômicos.
Claro. É inegável que um grande número de avanços tecnológicos veio de pressões militares. Mas acho que o que se observa aqui é que organizar seres humanos em torno de um objetivo comum pode alcançar coisas incríveis. Então, devemos investir dinheiro em pesquisa? Claro que devemos. Mas precisa ser uma pesquisa militar? O fato é que, na verdade, esses avanços surgiram devido a elevados níveis de paz positiva, não apesar deles.
Paz positiva? O que é isso?
A paz positiva são atitudes, instituições e estruturas que sustentam sociedades internamente pacíficas e criam ambientes ideais para que o potencial humano floresça. Identificamos oito fatores principais que estão associados estatisticamente com a ausência de violência e altos níveis de paz interna dentro de um país:
1. Bom funcionamento do governo;
2. Distribuição equitativa de recursos;
3. Livre fluxo de informações;
4. Boas relações com os vizinhos;
5. Altos níveis de capital humano que aumentam a expectativa de vida e a alfabetização;
6. Aceitação dos direitos dos outros;
7. Baixos níveis de corrupção;
8. Ambiente comercial saudável.
Isso leva a uma combinação de fatores que contribuem para a segurança humana básica, diversidade produtiva e justiça. Por diversidade produtiva, quero dizer, não estamos "tolerando" a diversidade, estamos abraçando-a e acionando-a para reunir diferentes pontos de vista e gerar resultados produtivos.
Como tudo isso se relaciona com a Guerra Fria e as tecnologias incríveis que dela resultaram?
Não se viram avanços tecnológicos que deram origem à internet, por exemplo, acontecer sem altos níveis de capital humano.
Mas houve a pressão da Guerra Fria como também a ameaça de aniquilação mútua entre os EUA e a antiga União Soviética.
Sim. Mas os erros do passado não precisam definir o futuro. Numa interpretação generosa, as pessoas durante a Guerra Fria fizeram o melhor que puderam com a informação e as narrativas que tinham na época. Mas o estudo da economia da paz está, na verdade, apenas começando.
Se analisarmos a questão de forma diferente, poderemos alcançar, certamente, esses tipos de avanços surpreendentes no contexto da mobilização para a paz e a prosperidade em vez de para a guerra.

Este é bem capaz de ser o truque mais simples do mundo para adormecer




D.R.

Se já pôs de parte o telemóvel na hora de deitar, bem como o café e o exercício, já seguiu outras tantas dicas e mesmo assim as insónias fazem parte da rotina, não custa, pelo menos, experimentar este truque, avançado por um popular psicólogo britânico

Recorde:

Acha que dorme o suficiente? Faça o teste e descubra

Nove regras para uma boa noite de sono

Privação de sono leva cérebro a comer-se a si próprio

"Não me odeiem, mas eu durmo mesmo muito bem e normalmente durmo oito horas seguidas. É raro acordar de noite e não preciso de despertador para me levantar". É com estas palavras que o britânico Richard Wiseman se apresenta num artigo que escreveu para o Daily Mail com uma série de sugestões para quem não tem a mesma sorte.
Responsável pela única disciplina do Reino Unido dedicada ao "entendimento público da psicologia", Wiseman é um nome reconhecido internacionalmente, tanto pelos seus vários livros publicados com investigação em áreas pouco comuns da psicologia como seu canal no YouTube, que conta com mais de 2 milhões de subscritores.
No artigo, em que recorda que a falta de sono está comprovadamente relacionada com vários problemas de saúde (só para recordar dois: Privação de sono leva cérebro a comer-se a si próprio e Como os problemas em dormir afetam a vida sexual), o psicólogo contextualiza que passou décadas a estudar os problemas em dormir para encontrar técnicas capazes de ajudar os que não conseguem uma boa noite de sono ou enfrentam uma luta diária para adormecer. E neste capítulo fica o alerta para quem acha que é bom "apagar" mal a cabeça chega à almofada. "É um indicador de que não está a dormir o suficiente", garante o especialista, que adianta que o ideal é um período de oito a 12 minutos desde que alguém se deita até adormecer.
Mais do que esses 12 minutos já é um sinal de problemas (excluindo casos de dores crónicas, por exemplo), e muito provavelmente de ansiedade. "Quando tem alguma coisa que não lhe sai da cabeça, isso mantêm-no demasiado alerta para dormir. Precisa de alguma coisa para sossegar a mente", escreve. "Mas tentar convencer-se a si próprio a dormir só vai dificultar as coisas", continua. A solução? Tentar ficar acordado.
"Tente usar um pouco de psicologia inversa e tente ficar acordado. Paradoxalmente, isto parece fazer-nos sentir menos ansiosos e ajudar a adormecer", garante.
A técnica foi estudada por investigadores da Universidade de Glasgow, que tiveram o seu sono monitorizado durante duas semanas. Aos elementos de um grupo foi pedido que tentassem manter-se acordados tanto tempo quanto possível, enquanto aos restantes não foi dada qualquer indicação. Conclusão: Os instruídos para se manterem acordados sentiam-se menos ansiosos na hora de ir para a cama e adormeciam mais rapidamente.
Wiseman explica que o problema em tentar relaxar para adormecer é que, nesse processo, estamos constantemente a monitorizarmo-nos, o que mantém o cérebro ativo e... tem o efeito contrário.
O psicólogo deixa ainda outras dicas. A uma delas chama "o jogo do alfabeto" e consiste em tentar nomear animais ou países que comecem com cada uma das letras do alfabeto, por ordem; Contar de 100 para trás de três em três é outra forma de distrair o cérebro (e o exercício é aborrecido o suficiente para dar sono...).

"Achava que o reconhecimento e a riqueza bastavam para ser feliz, mas quando os alcancei senti-me mais miserável"


Em entrevista à VISÃO, James R. Doty, neurocirurgião e filantropo, revela como "ser compassivo tem repercussões na fisiologia e traduz-se em ganhos de saúde, desde a diminuição das proteínas inflamatórias no sangue até ao fortalecimento do sistema imunitário"

Clara Soares
Jornalista e Psicóloga
James poderia ter sido apenas mais um miúdo pobre, com fome, condenado a crescer numa família disfuncional e a viver à margem até final dos seus dias numa pequena aldeia da Califórnia. Tinha 12 anos quando entrou numa loja de magia. A misteriosa mulher que o atendeu foi o seu porto de abrigo: durante um mês e meio, ensinou-lhe "truques" que lhe mudariam a vida. Meio século depois, o prestigiado neurocirurgião dedica-lhe o livro Dentro da Loja Mágica (Lua de Papel, 230 págs, €14,90).
Nesta obra, o médico explica como superou a adversidade e alcançou o sonho de vencer na vida através de técnicas milenares - relaxando o corpo, acalmando a mente, visualizando o que desejava. James teve tudo - tornou-se milionário - e quase tudo perdeu, na bolha das dot.com. Restavam-lhe ações de uma empresa que valiam 30 milhões de euros, aplicadas num fundo universitário. Apesar de ter dívidas de 3 milhões de euros, Doty decidiu doar todas essas ações ao fundo, aplicando a quarta técnica que a tal mulher misteriosa lhe ensinara: abrir o coração. Hoje, continua a acreditar que a generosidade e a compaixão transformam o mundo. Decidiu fundar o Centro de Investigação e Educação da Compaixão e Altruísmo (CCARE), apoiado pelo Dalai Lama. Aos 61 anos, James vive cada dia como se fosse único. Porque é mesmo.
Dorme pouco por natureza?
Por norma, costumo precisar de quatro a seis horas. Mas, se estiver realmente muito cansado, sou pessoa para dormir 12 horas seguidas. Outras vezes opto por fazer uma pequena sesta.
É raro encontrar médicos e investigadores que tenham um discurso próximo do místico.
Se pensarmos no que nos torna humanos, seja através da religião, da cultura ou da sociedade, chegamos sempre à compaixão. Deve haver uma razão para isso. Como cientista, sou ateu. Não acredito num Deus que olha por mim nem que existe algo mais para além do presente. Tal não impede que haja uma maioria a acreditar nisso, nem que eu reconheça a beleza da vida e a capacidade para amar e cuidar que as pessoas têm. Fascina-me como os líderes filosóficos e religiosos estão disponíveis para motivar as pessoas a serem melhores. Os budistas, por exemplo, usam técnicas validadas pela ciência para melhorar a saúde física e mental.
Diz que o coração é um órgão inteligente. Quer explicar isso um pouco melhor?
Começa a provar-se cientificamente o que diziam os líderes espirituais: a ligação entre a mente e o coração, que está ligado ao nervo vago, situado entre a base da cabeça e o tronco cerebral. Estes dois órgãos comunicam entre si através do sistema nervoso autónomo, que é formado por dois sistemas, o simpático e o parassimpático.
Um gera a resposta de stresse e o outro a de relaxamento, é isso?
Sim. O sistema nervoso simpático é ativado em face de uma ameaça ou perigo e conduz à libertação de neurotransmissores. A pressão arterial e o ritmo cardíaco aumentam, o fluxo sanguíneo é desviado da zona abdominal para o sistema musculoesquelético, de modo a podermos correr e as pupilas dilatam para que possamos ver melhor. Quando a sobrevivência não está em jogo, o sistema nervoso parassimpático, cujo lema é "descansar e digerir", permite funcionar sem correrias e com discernimento.
À primeira vista, a "loja mágica" confunde-se com "pensamento mágico" e "profecias que se autorrealizam", que são considerados sintomas de perturbações psicológicas...
Suspeito que quer saber se sou alvo de críticas. Entendo que quem nunca é criticado dificilmente estará a fazer algo interessante. Dito isto, tive educação científica e vivi coisas invulgares, diria mágicas até, como o estar entre a vida e a morte, e que aceitei apenas como ocorrências.
Ter passado por uma experiência de quase-morte, depois de um acidente de carro, abalou as suas crenças?
Pessoas que passaram por isso passaram a acreditar na vida depois da morte, mas tal não se passou comigo. Eu reconheço que há uma validação científica para certos fenómenos.
Atribui a sua realização a "truques" aprendidos numa loja de magia e que são validados pela ciência. O que quer dizer ao certo?
Cada ser humano é o somatório das experiências de vida que teve. Se eu não tivesse conhecido Ruth, a misteriosa mulher da loja de magia, talvez não fosse quem sou hoje. Quando não se tem acesso a dinheiro ou a mentores, ou se cresce em condições adversas, como pobreza, violência, abuso de drogas ou doença, a probabilidade de ser alguém na vida é zero.
Foi vítima de bullying, tinha uma mãe suicida e um pai alcoólico. Como superou esses traumas?
As pessoas que fazem bullying foram, elas próprias, vítimas de agressão. Sofrem com isso. Parte do meu padrão de frustração, raiva e impotência tinha a ver com o sentimento de desilusão face aos meus pais e às condições em que me criaram. Mais tarde pude perceber que também eles estavam embrenhados no seu próprio sofrimento, incapazes de satisfazer as minhas necessidades. Reconhecer isto permite perdoar e quebrar o padrão de agressão.
"Um verdadeiro mágico acredita na sua magia e transporta a audiência para um mundo onde o inacreditável se torna credível." Fala assim aos seus formandos?
Claro! Cada pessoa tem potencial para exercer um impacto transformador na vida dos outros. Sou médico. Sei que manifestar interesse pela vida de alguém através de um simples "olá" afeta a fisiologia, do mesmo modo que o tom da voz ou o toque. A mente é poderosa, mas é a compaixão que nos transforma.
Mesmo em situações críticas, de vida ou de morte, como numa sala de operações?
Falámos há pouco do sistema nervoso simpático que está envolvido nas reações de medo. O modo de sobrevivência limita as funções executivas e a capacidade de ver outras opções. Numa emergência cirúrgica, isso pode ter efeitos negativos. No caso que descrevo no livro [rompimento de vaso numa cirurgia à cabeça de uma criança, que seria fatal], a turbulência emocional era muita; o que fiz foi estimular o meu sistema nervoso parassimpático, respirar e, num estado relaxado, visualizar a veia com olho da mente e estancar a hemorragia.
Como define "o olho da mente", numa perspetiva científica?
É o modo como a intenção e a repetição se manifestam em neuroplasticidade e no fortalecimento de vias neuronais. Em certa medida, foi isso que me permitiu desenvolver resiliência. De resto, a mensagem que transmito no livro está a ser usada nos manuais escolares como forma de dar ferramentas às crianças para lidarem com a adversidade.
Teve tudo, perdeu tudo. O sucesso e o dinheiro não trazem mesmo a felicidade?
O facto de atrairmos para a nossa vida o que desejamos, com visualização, intenção e repetição pode funcionar ao contrário. As crenças negativas e a falta de compaixão aprisionam-nos.
O que quer dizer com isso?
Eu era um miúdo pobre que queria ter dinheiro para ter poder, para ter controlo. Achava que o reconhecimento profissional e a riqueza financeira bastavam para ser feliz, mas quando os alcancei senti-me mais miserável. A vida mudou, sofri perdas. Refleti sobre essa prisão. Para sair dela, tinha de abrir o coração.
Como se abre o coração?
É algo que passa por ser generoso, empático e estar ao serviço. Posso fazer coisas muito boas, mas serão sempre transitórias e, em última análise, insignificantes. Era isso que aquela mulher misteriosa que conheci queria dizer-me, e que só mais tarde compreendi plenamente.
Qual é a meta do Centro de Investigação e Educação da Compaixão e Altruísmo?
No CCARE temos vários programas que permitem aprender a ser compassivo. Isso tem repercussões na fisiologia e traduz-se em ganhos de saúde, desde a diminuição das proteínas inflamatórias no sangue até ao fortalecimento do sistema imunitário. Os resultados preliminares de alguns estudos já feitos no meio educativo sugerem que o treino da compaixão reduz o bullying e permite regular emoções, além de melhorar a atenção e o rendimento académico.
Pode dar exemplos do impacto da ciência da compaixão no quotidiano social?
Um clima de abertura e de confiança laboral reflete-se em melhores níveis de produtividade com impacto no mercado de capitais. Nos cuidados de saúde, a compaixão contribui para baixar os níveis de ansiedade, acelerar processos de cura e reduzir o tempo de internamento. Na justiça, permite reduzir a violência e as recaídas em pessoas que cumpriram pena.
De que fala no seu podcast, Alfabeto do Coração?
Começou a partir da mnemónica que fiz para apresentar na palestra dirigida a futuros estudantes de medicina, na universidade de Tulane (em Nova Orleães), que vai de C a L, ou seja, CDEFGHIJKL. Compaixão, Dignidade, Equanimidade - manter-se presente e sereno em todas as circunstâncias. Perdão (Forgiveness), Gratidão, Humildade, Integridade, Justiça, Generosidade (Kindness) e Amor (Love), que contém todas as anteriores. O Alfabeto do Coração teve tanto eco que ganhou a forma de podcast, com vários milhares de visitas.
Havendo tantas possibilidades de conexão, porque é que o mundo está tão assustador?
Uma das características que permite a sobrevivência humana é o tribalismo. Num cenário de medo, real ou imaginário, o sistema nervoso simpático é ativado e a reatividade toma o lugar da sensatez. As pessoas associam-se em função de crenças, e daí a cometerem atrocidades vai um passo. Olha-se para o outro como o inimigo, uma ameaça. Há recursos no planeta que chegam para todos.
O problema é quando gente movida pelo ego cria uma narrativa baseada no medo para conquistar poder.
A maioria das pessoas só quer viver a sua vida, mas acaba por ceder ao medo e ser cúmplice da ideia de que as diferenças são perigosas.
Como se sai desse ciclo?
Todos queremos comida, segurança, paz e uma vida melhor para os nossos descendentes. Basta uma mudança de circunstâncias para sermos nós a estar no lugar de refugiados, a fugir da violência como eles, arriscando estar numa situação ilegal. Um dos erros do colonialismo foi não haver uma verdadeira intenção de implementar direitos iguais para os que ficaram independentes, mas sem as mesmas oportunidades que os outros para terem uma vida melhor, que levou a condutas hostis. Colocar-se no lugar do outro e recusar-se a ser manipulado é libertador.
Teve convites de instituições do governo para usar o altruísmo na política, na economia?
Ainda não, mas reconheço que alguns decisores têm uma visão distorcida do mundo e tentam impô-la aos outros, como sucede com o discurso em torno das alterações climáticas e outras, assentes em dogmas religiosos. O desafio é alterar este estado de coisas com amor e paciência.
Entrevista publicada na VISÁO 1263 de 18 de maio

terça-feira, 24 de outubro de 2017

A dura realidade de ser professor no Brasil

Faltam docentes em várias disciplinas e jovens não têm interesse em seguir a profissão, que paga baixos salários e é uma das menos valorizadas pela sociedade. Plano Nacional de Educação pode ser uma saída.
Fundamental para a formação de cidadãos conscientes de seus direitos e deveres e bem preparados para o mercado de trabalho, a carreira de professor é uma das menos procuradas pelos jovens brasileiros. Salários baixos, ausência de planos de carreira, instabilidade no emprego devido ao alto percentual de contratações temporárias e também a falta de respeito em sala de aula são alguns dos motivos para a profissão ser uma das menos valorizadas no país.
As estatísticas do último vestibular compravam essa falta de interesse – os cursos que possibilitam uma carreira na docência do ensino básico estão entre os menos concorridos.
Enquanto os cursos mais procurados no vestibular da Fuvest, que seleciona alunos para a USP, têm mais de 50 candidatos por vaga, a concorrência nas licenciaturas e na pedagogia não chega a 10. Na Unicamp, a situação não é muito diferente: apenas a licenciatura em letras ultrapassa os 10 candidatos por vaga.
"A carreira de professor não é atraente e não consegue empolgar a juventude por não oferecer uma perspectiva de futuro que permita ao trabalhador transcorrer o tempo de trabalho com tranquilidade", afirma Roberto Leão, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE).
O desinteresse acaba se refletindo nas salas de aula. Apesar de o último censo da educação básica de 2012 apontar que o país tem mais de dois milhões de docentes, faltam professores nas disciplinas de matemática, física, química e inglês.
Aos profissionais que optaram pelo magistério resta tentar melhorar suas condições de trabalho com greves e protestos. Ao longo de 2013, muitas dessas ações foram manchete em jornais no país inteiro. No Rio de Janeiro, os professores municipais pararam de trabalhar por 77 dias e chegaram a ocupar a Câmara Municipal, de onde foram retirados à força pela polícia militar.
Brasil no fim do ranking
A péssima situação da carreira de professor no Brasil ficou evidente no ranking de valorização elaborado pela fundação educacional Varkey Gems, em 2013. Com base em quatro indicadores – interesse pela profissão, respeito em sala de aula, remuneração salarial e comparação com outras profissões –, a instituição avaliou a carreira em 21 países.
O Brasil ficou em penúltimo lugar. Numa escala que vai de 0 a 100, a avaliação do país ficou bem abaixo da média de 37 pontos, atingindo apenas 2,4 pontos. O país ficou à frente apenas de Israel. A China recebeu 100 pontos, sendo o local onde mais se valoriza a profissão, seguida da Grécia, com 73,7, e da Turquia, com 68.
Mas a grande contradição revelada pelo estudo fica por conta da questão da confiança no professor. Embora a profissão tenha uma péssima reputação, o Brasil é o país que mais confia nos docentes para oferecer uma boa educação.
Falta de profissionais
Para a pesquisadora Gabriela Miranda Moriconi, da Fundação Carlos Chagas, as razões que levam a maioria dos jovens a desistir de seguir uma carreira nessa área são os baixos salários, o desrespeito por parte dos alunos e a falta de valorização da profissão pela sociedade.
O atual piso salarial nacional para professores de nível médio, com uma jornada de trabalho de 40 horas é de 1.697,37 reais. Mas muitos estados não pagam nem mesmo esse valor, que já é bem inferior aos ganhos de outras profissões. Segundo Leão, um profissional de educação ganha, em média, 60% do que outros profissionais empregados no serviço público com a mesma formação.
"Para melhorar a remuneração, a saída encontrada é duplicar ou triplicar, quando possível, a jornada de trabalho como professor ou, em alguns casos, arranjar uma segunda ocupação. Isso prejudica tanto a vida pessoal do profissional como a qualidade do trabalho que ele pode realizar", completa Moriconi.
Medidas para melhorar a situação
Para reverter esse cenário, a profissão precisa passar por um processo de valorização, começando com a criação de um plano de carreira nacional que estimule o aperfeiçoamento dos profissionais e valorize seu tempo de trabalho e também o serviço realizado na escola, afirmam os especialistas.
Outras medidas apontadas são um maior reajuste dos salários, a diminuição das contratação temporárias e o incentivo a uma formação continuada.
Nesse sentido, o Plano Nacional de Educação (PNE), em votação no Congresso Nacional e que deve valer até 2024, pode ser um dos caminhos para tornar a carreira de professor atraente. O PNE prevê equiparar a remuneração dos docentes com a média salarial de outras ocupações de nível superior e a criação de planos de carreira em todos os municípios.
"No entanto, vai ser necessário que o governo federal defina estratégias concretas para garantir que os recursos adicionais previstos no plano cheguem aos estados e municípios e sejam efetivamente empregados para a melhoria dos salários do magistério", afirma Moriconi.
O PNE já foi aprovado na Câmara e no Senado, onde sofreu modificações, e por isso precisa ser novamente votado pelos deputados.
O vice-coordenador da diretoria de educação da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, Andreas Schleicher é otimista em relação às mudanças que estão acontecendo nesse setor no Brasil.
"O governo fez coisas importantes, melhorando as condições de trabalho, aumentando os salários. Em muitos aspectos o Brasil está mudando na direção certa, mas ainda precisa criar um plano de carreira que proporcione o desenvolvimento dos profissionais", opina Schleicher.

China testa sistema de transporte público sem motorista

Mistura entre ônibus, trem e bonde é movido a baterias recarregáveis. Custos equivalem a 20% dos de sistema convencional. Veículos elétricos são aposta da China em indústria promissora e contra poluição.
Veículo conhecido como ART é testado em Zhuzhou Veículo conhecido como ART é testado em Zhuzhou
O primeiro sistema público de transporte rápido sem motorista do mundo foi testado com sucesso na cidade chinesa de Zhuzhou, na província de Hunan, informou nesta terça-feira (24/10) a agência oficial de notícias Xinhua.
Com capacidade para transportar até 300 passageiros, o veículo testado é uma mistura entre ônibus, trem e bonde. Ele tem três vagões, mede 32 metros de comprimento, tem uma velocidade máxima de 70 quilômetros por hora e está equipado com sensores para ler as dimensões das ruas. Ele é movido à eletricidade, com baterias recarregáveis.
A empresa que construiu o Autonomous Rail Rapid Transit (ART) quer ampliar o veículo para cinco vagões, o que deverá aumentar a capacidade de transporte para 500 passageiros. No teste, o veículo fez um percurso de três quilômetros, levando passageiros por pistas virtuais nas ruas de Zhuzhou durante 24 horas.
O sistema e o veículo foram desenvolvidos pelo braço de pesquisas da CRRC Zhuzhou Locomotive, empresa que produz peças para a ferrovia de alta velocidade da China.
"Operando em pistas virtuais por meio de sensores montados no veículo, o trem pode ajustar sua tração, frenagem e indicações às ordens do sistema central", disse Feng Jianghua, engenheiro-chefe da CRRC Zhuzhou Locomotive. Ele acrescentou que o veículo será lançado oficialmente em 2018.
A CRRC Zhuzhou Locomotive salientou ainda que o sistema custa apenas o equivalente a 20% de um sistema de bonde tradicional – uma solução que facilitaria a ampliação de sistemas de transporte público especialmente em localidades que não têm recursos financeiros para novas linhas de metrô e trem.
Veículos elétricos
Novas ideias no âmbito do transporte público são bem-vindas na China, um país assolado por altíssimos níveis de poluição atmosférica e por engarrafamentos.
A China tem os planos governamentais mais agressivos do mundo para promover o desenvolvimento de carros elétricos, por exemplo. Os líderes comunistas os enxergam como uma indústria promissora e uma maneira de limpar cidades mergulhadas no smog (mistura de fumaça e neblina).
No último domingo, os primeiros dez ônibus elétricos começaram a circular nas ruas de Pequim, onde até finais deste ano as autoridades esperam que 4.500 desses veículos estejam em pleno funcionamento, segundo informou também a Xinhua.
Os ônibus têm 18 metros de comprimento e são pintados de vermelho. Serão alimentados por baterias que podem ser carregadas em apenas 15 minutos e têm a possibilidade de percorrer até 130 quilômetros com apenas uma carga, segundo a autoridade de transporte de Pequim.
A cidade é considerada uma das capitais mais contaminadas do mundo. O trânsito, as usinas termoelétricas e os sistemas de calefação são alguns dos principais causadores da poluição, algo que Pequim tenta combater com limitações à circulação de veículos e a substituição gradual do carvão por gás natural como fonte de energia.
Segundo a Xinhua, o número de veículos elétricos que atualmente circulam pela capital chinesa é de cerca de 151.500.
RK/efe/ap/ot

Imagens do espaço mostram efeitos das mudanças climáticas nos Andes bolivianos

Próximo à borda da cordilheira dos Andes dois desertos de sal se formaram ao longo dos anos em território boliviano. Veja as imagens do satélite da Agência Espacial Europeia.
 
Assistir ao vídeo 01:40
Esta planície de sal perto da borda dos Andes já fez parte de um lago gigante. O lago secou, originando dois desertos de sal. O maior deles, Salar de Uyuni, ontém 70% das reservas de lítio conhecidas no mundo. O deserto de sal é quase desprovido de vida animal ou vegetal, mas, em novembro, se transforma numa
zona de reprodução de flamingos rosados.

Carro a hidrogênio

Carro a hidrogênio Afinal, o carro elétrico e o híbrido são o ponto de chegada da tecnologia do combustível para veículo automotor? Não são. O ponto de chegada é o carro movido a hidrogênio ou células de combustível. Ele já existe comercialmente no Japão. É o Toyota Mirai, que custa US$ 70 mil e faz o equivalente a 29 km/l, comentou, em Porto Alegre, o chefe de comunicação e relações públicas da marca no Brasil, Erick Boccia. Mas a Toyota anunciou, no Japão, o lançamento de ônibus a hidrogênio, com uma vantagem adicional: em situação de emergência, ele também pode operar como gerador de alta potência de alimentação externa. Sua célula de combustível será executada em plataforma mais poderosa do que a Mirai, com até 10 tanques de combustível segurando 600 litros de H2 e produzindo 235 kWh, ou quase três vezes a saída de uma bateria de Tesla Model S.


A Reforma Trabalhista e o fim do Estado Social

Marta Gueller
23 Outubro 2017

A Reforma Trabalhista tem mobilizado a sociedade. Por isso, convidei um especialista em Direito do Trabalho, o Dr. Felipe Penteado Balera, doutorando em Direito Constitucional pela PUC/SP e Professor da Universidade Paulista – UNIP. Ele escreveu o artigo abaixo para nosso blog.
O primeiro movimento de proteção individual e garantia de direitos se deu com a limitação da autoridade estatal e reconhecimento da autonomia individual. A noção de liberdade restou magnificamente definida na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, que sucedeu a Revolução Francesa, consagrando que: “A liberdade consiste em poder fazer tudo que não prejudique o próximo: assim, o exercício dos direitos naturais de cada homem não tem por limites senão aqueles que asseguram aos outros membros da sociedade o gozo dos mesmos direitos. Estes limites apenas podem ser determinados pela lei”.
Para garantir a liberdade, a mesma Declaração de 1789 ousou reconhecer que os homens nascem e são livres e iguais em direitos.

O papel da Revolução foi fundamental para proclamar essa liberdade de cada qual, até então, súditos do arbítrio do Estado, comandado por seu monarca soberano. Porém, o reconhecimento da liberdade e igualdade em direitos desconsiderava as desigualdades de fato, e não conseguia sair do papel para produzir efeitos no mundo real. Ao contrário do que anunciavam os liberais, não havia liberdade, muito menos igualdade. Recorda-se que havia escravidão, sustentada, inclusive, por importantes personagens do liberalismo como John Locke e Thomas Jefferson, defensores e praticantes da escravidão.
É certo que, em quase todos os países, a escravidão foi abolida ainda no século XIX, mas nem a abolição conseguiu extingui-la [1]. Além disso, o trabalho escravo foi substituído pelo trabalho injustamente remunerado, obrigando muitos empregados a dedicarem mais da metade de suas vidas à satisfação das necessidades e interesses alheios, sem receberem, em troca, uma mínima parte do ganho e do reconhecimento social de seus empregadores.
A falsa afirmação do liberalismo de que os homens nascem livres e são iguais apenas provocou ainda mais desigualdades, condenando à igual miséria os que já eram miseráveis e, para que alguns poucos pudessem concorrer em liberdade, a grande maioria se tornou mão de obra, meros membros não autônomos de corpos jurídicos que não lhes pertencem, com a liberdade de escolher entre tentar sobreviver, satisfazendo vontades que não são suas, ou morrer de fome.
Assim, diante desta grave contradição do Estado Liberal, que com o justo temor da intervenção do Estado na vida social, permitiu-se, por meio da liberdade de contrato entre os desiguais, sem qualquer participação ou regulação estatal, a exploração dos mais fracos economicamente pelos mais fortes, resultando em injustiça social. O individualismo exacerbado do liberalismo impediu que o direito à liberdade fosse igual para todos. Não se poderia admitir um conceito de liberdade que servisse só para alguns.
Deste modo, com a finalidade de permitir a justiça social e a redução das desigualdades, surge o Estado Social e uma nova dimensão na proteção dos direitos fundamentais, que passaram a ser consagrados nas Constituições que emergiram na época, como a Constituição Mexicana de 1917 e a Constituição de Weimar, na Alemanha, de 1919. Para garantia dos direitos sociais (direitos do trabalho, saúde e educação, entre outros), nascidos no novo modelo de Estado, a postura deste não poderia mais ser apenas de abstenção, passando a se exigir conduta positiva do ente estatal com o fim de implementar direitos, que visam tornar a sociedade mais justa e igualitária.
Neste contexto, ao Estado, por meio de suas instituições e órgãos, se impõe uma nova maneira de intermediar conflitos, especialmente quando disputam polos tão antagônicos do ponto de vista econômico, como é o caso das relações trabalhistas e de consumo. Em tais relações, o papel Estado como mediador do conflito não pode ser o mesmo que se espera nas relações paritárias, pois para permitir a justiça na solução do embate desequilibrado, se torna necessário criar e aplicar regras que amenizem a desigualdade. Ilustra esta ideia o exemplo de um jogo de futebol entre jogadores profissionais e crianças de 10 anos de idade, no qual para permitir certo equilíbrio, algumas medidas favorecendo a equipe de crianças hão de ser adotadas, como permitir maior número de jogadores e reduzir a baliza em que atacará a equipe adversária.
Por outro lado, não pode se afirmar que com o Estado Social a autonomia individual e todas as demais liberdades conquistadas no Liberalismo ficaram totalmente superadas. Assim como os demais direitos fundamentais, a autonomia privada deve ser protegida na maior medida do possível.
A autonomia privada permanece como valor inerente à pessoa e sua dignidade. O ser humano é autossuficiente e capacitado para escolher o melhor destino para sua vida, suas preferências, vantagens e deveres. No entanto, nem toda manifestação de autonomia privada merece proteção constitucional com a mesma intensidade. Isto porque certas escolhas não são propriamente preferencias individuais, mas decisões emergenciais visando a própria sobrevivência. Logo, quando a autonomia privada está relacionada a decisões existenciais ou preferências, referentes à personalidade, imagem ou privacidade da pessoa, seu valor será maior do que escolhas meramente patrimoniais ou econômicas, especialmente aquelas que são frutos de escolhas necessárias.
Na contramão da evolução da proteção estatal aos direitos sociais e do próprio Estado Social, a Lei Federal nº. 13.467, de 13 de julho de 2017, popularmente conhecida como “Reforma Trabalhista” limitou a competência do Poder Judiciário no exame de convenção ou acordo coletivo de trabalho apenas aos aspectos formais e de validade do consenso, tendo como baliza o princípio da intervenção mínima na autonomia da vontade coletiva (art. 8º, §3º, CLT). Além disso, a convenção coletiva e o acordo coletivo passaram a ter prevalência sobre a lei em uma série de assuntos (arts. 611-A e 611-B).
Assim, ainda que permaneça a distância econômica, social e de organização entre empregadores e empregados, em gigantesco desfavor dos segundos, o Estado, nem por via legislativa, nem por meio do Poder Judiciário, poderá intervir na relação trabalhista.
Parece claro que tais normas são claramente inconstitucionais, pois permitem a redução de direitos sem previsão legal, bem como atentam contra a livre apreciação do Poder Judiciário. Mas, sem entrar no mérito da constitucionalidade da norma, a Lei de 2017 retrocede 100 anos no tempo, quando a Constituição Mexicana de 1917 inaugurou, no âmbito constitucional, a proteção social.
Ao invés da justiça e busca pela redução das desigualdades sociais, que são objetivos fundamentais do nosso Estado e servem como baliza para os Poderes da República, a Lei passa a preferir a autonomia privada, ainda que sobre temas e assuntos meramente patrimoniais e econômicos, e nos quais a escolha individual é feita muito mais por necessidade e sobrevivência do que com base em valores e preferências individuais.
Como demonstrado acima, a relação de trabalho, em que a desigualdade entre os polos é imensa, não pode ser mediada como se as partes fossem paritárias. A autonomia privada não pode ser a única baliza. Sem a intervenção do Estado, sobra ao empregador a autonomia de oprimir seus funcionários ou aplicar a lei, enquanto que aos empregados resta sobreviver.

Tatuagens geram nanopartículas que se depositam nos gânglios

Tatuagens geram nanopartículas que se depositam nos gânglios
Esquema da migração das nanopartículas presentes nas tintas de tatuagens dentro do corpo humano.
[Imagem: Christian Seim]
Tatuagem superficial, efeitos profundos
Os elementos que compõem a tinta usada nas tatuagens viajam dentro do corpo humano na forma de micropartículas e nanopartículas e atingem os gânglios linfáticos.
É a primeira vez que foram encontradas evidências analíticas do transporte de vários desses pigmentos orgânicos e inorgânicos e impurezas de elementos tóxicos, o que exigiu a caracterização em profundidade dos pigmentos ex vivo em tecidos tatuados.
Os resultados, obtidos por uma equipe da França e da Alemanha que utilizou o Laboratório Síncroton Europeu (ESRF) para caracterizar os tecidos e os contaminantes, foram publicados na revista Nature Scientific Reports.
"Quando alguém quer fazer uma tatuagem, frequentemente [essas pessoas] são muito cuidadosas na escolha de um estúdio onde se usa agulhas estéreis que não foram usadas anteriormente. Ninguém verifica a composição química das cores, mas nosso estudo mostra que essas pessoas deveriam fazer isto," resumiu o professor Hiram Castillo, membro da equipe.
Tatuagens geram nanopartículas que se depositam nos gânglios
As imagens de fluorescência de raios X mostram as nanopartículas já depositadas no tecido - incluindo partículas de dióxido de titânio.
[Imagem: ESRF/Ines Schreiver]
Colorindo os gânglios linfáticos
Segundo a equipe, pouco se sabe sobre as potenciais impurezas na mistura de cores aplicada à pele durante as tatuagens. A maioria das tintas de tatuagem contém pigmentos orgânicos, mas também incluem conservantes e contaminantes como níquel, cromo, manganês ou cobalto. Além disso, depois do carbono negro, o componente mais encontrado nessas tintas é o dióxido de titânio (TiO2) que, na forma de nanopartículas, pode ser ativado pela luz do Sol e tornar-se tóxico no interior do corpo humano.
"Nós já sabíamos que os pigmentos de tatuagens viajam para os gânglios linfáticos devido à evidência visual: os gânglios linfáticos ficam coloridos com a cor da tatuagem. É a resposta do corpo para limpar o local de entrada da tatuagem. O que nós não sabíamos é que os pigmentos viajam de forma nano, o que implica que eles podem não ter o mesmo comportamento que as partículas em um nível micro. E esse é o problema: não sabemos como as nanopartículas reagem," explicou o pesquisador Bernhard Hesse.
As medições de fluorescência de raios X mostram uma ampla gama de partículas, com até vários micrômetros de tamanho, na pele das pessoas que se tatuaram, mas apenas partículas menores (nano) foram detectadas nos gânglios linfáticos. Isso pode levar ao aumento crônico do linfonodo e à exposição ao longo de toda a vida.
A equipe também relata fortes evidências tanto da migração quanto da deposição a longo prazo dos elementos tóxicos e dos pigmentos das tatuagens, bem como de alterações conformacionais de biomoléculas que têm sido associadas à inflamação cutânea e outras adversidades após a tatuagem.
O próximo passo da equipe será inspecionar novas amostras de tecidos de pacientes com efeitos adversos em suas tatuagens, a fim de verificar se há ligações entre esses efeitos e as propriedades químicas e estruturais dos pigmentos usados para criar as tatuagens.

domingo, 22 de outubro de 2017

O novo império global

Em uma virada histórica, o maior país comunista do planeta investe no livre mercado e na globalização para se tornar a principal potência econômica nas próximas três décadas

Crédito: AP Photo/Andy Wong
PAÍS DO FUTURO Em discurso, Xi Jinping defende economia pautada pelo livre mercado (Crédito: AP Photo/Andy Wong)

Ao construir sua Grande Muralha, a China empreendeu ao longo de séculos um esforço colossal para se proteger de ameaças e manter sua ordem interna. A estratégia foi a do isolamento. Hoje, enquanto os Estados Unidos de Donald Trump declaram a intenção de construir muros para preservar seus interesses de hegemonia econômica, o presidente chinês Xi Jinping dá provas de que a direção a ser seguida por seu país é exatamente a oposta. A “nova era” da China, como anunciou na semana passada o líder chinês, consiste em criar um mundo sem barreiras protecionistas, onde a nação mais populosa do planeta se imponha pela força de seu crescimento econômico. É esse o cenário ideal para que a nação asiática assuma o status de maior potência global.
O momento é favorável. Com Donald Trump no poder e seu arrogante senso de diplomacia, que resulta em desastrosas políticas isolacionistas, o espaço para a China no cenário internacional é um horizonte bastante alargado. A segunda maior economia do mundo, cuja meta é crescer 7% ao ano, quer a liderança. “Como disse em seu discurso de campanha e mostra agora nas decisões que tem tomado, Trump está governando os Estados Unidos para os americanos e deixando o mundo para China”, diz o professor e cientista político Alexandre Uehara, diretor acadêmico das Faculdades Rio Branco.
NOVA ERA
O movimento feito agora pelo gigante asiático é histórico e terá consequências importantes para a nova formulação geopolítica do planeta. Maior nação do mundo sob o regime comunista, a China dá passos rumo a uma espécie de socialismo à chinesa. O governo central continua defendendo um Estado forte, mas vem sistematicamente adotando medidas que são chaves do sistema capitalista.
O presidente Xi Jinping havia sinalizado essa mudança em janeiro, durante a reunião dos mais importantes líderes mundiais em Davos, na Suíça. Na semana passada, sacralizou o novo rumo. Na quarta-feira 18, o líder discursou por mais de três horas na abertura do Congresso Nacional do Partido Comunista — evento que iria confirmar sua permanência no poder por mais cinco anos. Aplaudido assim que entrou no salão do Palácio do Povo, em Pequim, Jinping falou para uma plateia de 205 membros do Comitê Central e 2,3 mil delegados. Durante seu pronunciamento, repetiu diversas vezes a palavra “nova era” ao se referir à economia do país. Declarou que pretende abrir o mercado a investimentos estrangeiros, defendeu que o crescimento seja mais sustentável e garantiu que seguirá empenhado em fazer as reformas econômicas e financeiras necessárias para a exploração de uma economia pautada pelo livre mercado. E foi enfático ao afirmar que o país ocupa hoje uma nova posição no mundo. “Precisamos continuar nos esforçando por mais trinta anos para alcançarmos a completa modernização e nos tornarmos uma nova potência global.”
“A abertura traz progresso para nós, enquanto o isolamento nos deixa atrasados” Xi Jinping, presidente chinês (Crédito: Johanes Eisele/AFP/Getty Images)
Para um país que até pouco tempo atrás era acusado de praticar dumping, Xi Jinping também surpreendeu ao prometer tratamento igualitário a empresas estrangeiras. “A abertura traz progresso para nós, enquanto o isolamento nos deixa atrasados”, disse. A China de Jinping não fechará suas portas para o mundo. Ao contrário. Estará cada vez mais aberta. “A fala de Xi está mais próxima do que os estrangeiros querem ouvir da China. E isso só o favorece”, diz Uehara. Com crescimento econômico na faixa dos 6,5% ao ano, o país asiático responde hoje por 30% do PIB mundial. Sua abertura e adesão à globalização devem deslocar o eixo de importância econômica e política dos Estados Unidos, hoje a linha mestra do mundo, em direção à Asia.
Isso está sendo possível especialmente por causa da habilidade política de Xi Jingping para se manter no poder desde 2013. Dois de seus méritos à frente do governo chinês foram o de ter tirado 60 milhões de pessoas da pobreza e o esforço para combater a corrupção. Politicamente, porém, adota um tom conservador em seu discurso e não permite divergências no partido comunista, do qual também é presidente. “Cada um de nós precisa fazer o possível para defender a autoridade do partido e o sistema socialista chinês e se opor de forma resoluta a toda palavra ou ação que vise solapá-lo”, afirmou durante sua fala na semana passada. Jinping não permite que lhe façam sombra. E assim deve se consolidar no poder até 2022, conduzindo a potência chinesa à liderança do mundo.