quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Irã em convulsão

 

Guilherme Botacini
Guilherme Botacini
Repórter de Mundo         
As ruas iranianas ficaram repletas de manifestantes em 2009, 2017, 2019 e 2022, por diferentes razões. Em todos os anos, elas nasceram ou terminaram por convergir em críticas amplas ao regime.

Em todos os casos, a repressão que se seguiu foi impiedosa. São dezenas, às vezes centenas de mortos, em cada um desses anos.

Na virada de 2025 para 2026, o roteiro se repete.

O que começou como protestos contra a crise econômica, inflação e perda de valor do rial, a moeda do país, explodiu para grandes manifestações contra os aiatolás.

E, de novo, a resposta de Teerã foi uma forte repressão. Desta vez, no entanto, o cenário é de algumas grandes diferenças. A começar pelas estimativas, que já contam os mortos aos milhares e mostram que estes são os protestos mais letais desde a Revolução Islâmica.
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Como os protestos começaram?
Os primeiros a tomar as ruas foram comerciantes do Bazar de Teerã, e o foco era a crise econômica.

Uma mistura de inflação alta, derretimento da moeda e dificuldades no comércio em meio à perda do poder de compra da população fizeram os comerciantes virar de lado.

Digo virar de lado porque os lojistas dos mercados das grandes cidades do país foram fundamentais para a Revolução Islâmica de 1979 que levou os aiatolás ao poder. Essa relação mudou ao longo do tempo, mas o grupo social vinha sendo esteio do regime.

E por que os protestos se expandiram?
O Irã passou no fim do ano passado por uma seca gravíssima, a pior em seis décadas. O regime chegou a estudar até a retirada da população da capital, tamanha a intensidade do problema.

À seca e à crise econômica soma-se a perene repressão política. O regime tratou inicialmente de forma moderada a temperatura das ruas, dizendo que era importante ouvir as demandas da população.

Com o crescimento dos atos, passou a acusar os Estados Unidos e Israel de inflamar os protestos e prometeu repressão a desafios ao regime.
  • A origem da crise é múltipla. É evidente que ela também se deve, em parte, à renovada pressão externa, em particular a sanções retomadas pelos EUA sob Donald Trump.
Mas também os cenários global e regional são diferentes em comparação aos últimos grandes protestos, em 2022-23.
Mulher de casaco claro segura e queima uma foto impressa de um homem de barba e turbante preto em área externa com neve ao redor, à noite, com edifício iluminado ao fundo.
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Qualquer análise do cenário global desde janeiro de 2025 passa pelo centro de gravidade que se tornou a política externa dos EUA sob Trump.

Para o Irã, essa afirmação é ainda mais potente.

Lembremos:
  • Em junho de 2024, os EUA bombardearam o programa nuclear iraniano e, junto com Israel, lideranças militares de Teerã;
     
  • Sanções foram retomadas contra a República Islâmica;
     
  • Trump, durante seu primeiro mandato, retirou os EUA do acordo nuclear iraniano (que por sua vez retirava sanções ao país em troca de limites ao programa atômico).
Além disso, o Irã está regionalmente enfraquecido após derrotas de seus principais rivais no Oriente Médio: Hamas, em Gaza, e Hezbollah, no Líbano, gravemente atingidos por Israel, e a queda da ditadura de Bashar al-Assad, na Síria.

Todos esses elementos se juntam em um caldeirão que inspira receio no país e na comunidade internacional.

De novo, o motivo principal disso é o presidente americano.

Depois do ataque americano a Caracas e captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro, o uso da força pela maior potência militar do planeta deixou de ficar no plano da ameaça e voltou a ser uma possibilidade real.

Nesta semana, Trump afirmou que havia abandonado qualquer diálogo com o regime iraniano enquanto as mortes continuassem a ocorrer nos protestos.

Ele instou a população iraniana a “tomar as instituições” e afirmou que “ajuda estava a caminho” —o americano insiste em não descartar o uso da força.

Em reunião do Conselho de Segurança da ONU, o representante da China criticou as declarações americanas e falou que é preciso “evitar jogar lenha na fogueira”.
🎧 Para escutar
Os queridos do Café da Manhã produziram um ótimo podcast que discute os protestos no Irã e as pressões internas e externas sobre o regime. Os entrevistados são o professor de relações internacionais Tanguy Baghdadi, apresentador do podcast Petit Journal, e o professor de relações internacionais da PUC Minas Danny Zahreddine. Escute neste link ou no seu tocador de podcasts preferido.
Avião militar stealth B-2 Spirit voando com trem de pouso abaixado contra céu azul claro. Aeronave tem formato de asa voadora, sem cauda visível.
Análise
Não há opção militar fácil para os EUA no Irã

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