quinta-feira, 16 de abril de 2026

A síndrome da pessoa boazinha: por que querer sempre agradar é uma cilada para a saúde mental

 Pulsa

Desejo constante de não decepcionar o outro pode levar à ansiedade, ao esgotamento e à perda de identidade

Por Isabella Abreu
 

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Recém-lançado no Brasil, o livro “O que eu fiz de errado?” (Editora BestSeller), da psicoterapeuta americana Meg Josephson, coloca em evidência um comportamento comum e muitas vezes elogiado: a necessidade constante de agradar. A autora parte de sua trajetória pessoal para discutir o impulso de monitorar o humor alheio, evitar conflitos a qualquer custo e assumir responsabilidades excessivas para manter relações estáveis.

Embora esse padrão costume ser confundido com gentileza e bondade, ele pode esconder medo de rejeição, dificuldade de estabelecer limites e uma relação frágil com o próprio desejo. Para entender de onde vem essa necessidade e quais são suas consequências para a saúde mental, especialistas explicam como o hábito de dizer “sim” o tempo todo pode custar caro — para quem vive assim e para a qualidade dos vínculos que constrói.

Necessidade de agradar pode esconder uma dificuldade profunda de dar voz aos próprios desejos.
Necessidade de agradar pode esconder uma dificuldade profunda de dar voz aos próprios desejos. Foto: Kiattisak/Adobe Stock

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Para a psicanalista Elisama Santos, a raiz dessa questão está na própria natureza humana. “Somos programados para a conexão”, afirma. “Por mais que se fale em autossuficiência, precisamos do amor do outro. Somos seres do coletivo”. Assim, tudo que ameaça o vínculo pode disparar estratégias de autoproteção. Em algumas histórias, ainda na infância, a criança aprende que a melhor forma de manter a conexão é agradando. “Ela conclui, a partir da relação com os cuidadores, que fazer o que o outro quer é a maneira de garantir que ele não vá embora.”

Essa lógica também aparece nas observações de Meg Josephson. Segundo a psicoterapeuta, muitas pessoas aprendem cedo que, para se sentirem seguras ou amadas, precisam ser “boas” e “perfeitas” para manter a paz ao redor. “Isso é especialmente comum quando alguém cresce com cuidadores críticos, controladores ou emocionalmente imprevisíveis”, explica. Nesses contextos, a criança tende a desenvolver uma espécie de hipervigilância emocional, tentando antecipar os humores e necessidades dos outros para evitar conflitos.

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Com o tempo, isso deixa de ser escolha consciente e vira um padrão automático de funcionamento.

Nem sempre é gentileza

O comportamento pode assumir muitas formas. Há quem nunca reclame e esteja sempre “bem”. Há a pessoa que se antecipa às necessidades de todos, resolve problemas e raramente diz não. No mercado de trabalho, o padrão aparece como hiperprodutividade e alta performance: quem assume tudo, dá conta de todas as demandas e dificilmente estabelece limites.

O ponto central, segundo Elisama, é que agradar costuma ser socialmente valorizado. “Não é um comportamento rechaçado. Pelo contrário: as pessoas ao redor se beneficiam disso e incentivam”. A filha responsável, a profissional incansável, a parceira que “segura todas” — todos esses papéis podem esconder uma dificuldade profunda de sustentar o próprio desejo.

A psicóloga Claudia Oshiro, especialista em terapia comportamental e cognitiva, reforça que esse padrão comportamental de esforço excessivo para satisfazer os outros — também conhecido como people-pleasing — costuma se desenvolver em contextos em que afeto e segurança dependiam de corresponder às expectativas alheias. “Isso pode acontecer em famílias muito críticas, imprevisíveis ou emocionalmente pouco disponíveis.”

Nesses cenários, agradar deixa de ser apenas gentileza e passa a funcionar como mecanismo de sobrevivência emocional. “A pessoa aprende que dizer ‘sim’, evitar conflitos e antecipar necessidades alheias reduz rejeição, tensão ou culpa. Muitas vezes o que está sendo protegido não é só a relação com o outro, mas a própria autoestima e o senso de pertencimento”, afirma.

Claudia ainda destaca que o problema não é a dedicação em si, mas quando ela passa a ser guiada principalmente pelo medo de desagradar, decepcionar ou perder vínculos — e não por escolhas genuínas.

Consequências silenciosas

As repercussões aparecem em diferentes níveis. Na relação consigo mesma, a pessoa começa a se desconectar de si. “O foco em agradar se torna tão grande que ela passa a não reconhecer o próprio desejo, o que sente, seus limites”, diz Elisama.

O efeito também é perverso na relação com os outros. A pessoa passa a ser vista como alguém que não precisa de ajuda, de cuidado, que não tem vontade própria. Assim, os laços se formam a partir de uma versão adaptada da pessoa, distante de quem ela realmente é — o que compromete a autenticidade dos vínculos.

Meg aponta que esse padrão pode gerar ressentimento silencioso nos relacionamentos. Como a pessoa evita conflitos a todo custo, acaba se moldando constantemente ao outro e, com o tempo, pode sentir que ninguém a conhece de verdade.

Além disso, há impactos emocionais como ansiedade, ressentimento, sensação de invisibilidade, esgotamento e maior vulnerabilidade a burnout e depressão.

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